Senhores Atenienses, Ouçam!

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segunda-feira, 9 de julho de 2012

TEOLOGIA DO PACTO: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES



 
INTRODUÇÃO

 No nosso estudo, teologia bíblica e sistemática do pacto podem ser definidas como o estudo da revelação de Deus registrada nas Escrituras do Antigo e Novo Testamento em palavras e atos, cujo modo essencial do relacionamento de Deus com sua criação é o pacto, monergístico e unilateral na sua iniciativa, porém bilateral em sua realização no sitz in leben com participação de outra parte, a saber, o homem.
            NATUREZA DA REVELAÇÃO
            A revelação de Deus possui características próprias, quais são: (1) Histórica: Deus revelou sua vontade, em palavras e atos, no decurso da história humana, inserida no ambiente e contexto específico em que viveram os receptores dessa revelação. (2) Progressiva: A revelação não foi comunicada em todos os aspectos de uma só vez, mas foi progressivamente manifestada. A cada nova revelação algum aspecto, formal e externo, era acrescentado e outros confirmados. Contudo, isso não significa uma alteração na mensagem, pois a natureza e o sentido básico dessa revelação permaneceram os mesmos apesar das mudanças externas e formais. (3) Orgânica: Esse aspecto elucida o anterior. Significa que a mensagem foi dada inteira na sua forma embrionária. Todos os elementos estavam presentes como uma semente que mais tarde se transforma numa robusta árvore. (4) Adaptável: A revelação não era algo desassociado da vida das pessoas, mas funcionava como a mola mestra e o princípio motivador que guiava e nutria o sentido da existência dos recipientes, e que, corretamente interpretada, continua sendo adaptável aos nossos dias.
           O entendimento dessas características e a compreensão do registro bíblico como INSPIRADO, INERRANTE e INFALÍVEL é fundamental para uma correta abordagem do estudo dessa lição. Abaixo um gráfico que pode ajudar: 

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O SIGNIFICADO DA PALAVRA PACTO[1]
        A palavra que a Escritura usa para o pacto[2] é derivada da palavra בּרית (berith) do Antigo Testamento. Alguns pensam que a palavra é derivada de um termo que significa “cortar”. De acordo com essa interpretação, berith está conectado com o costume de cortar os animais do sacrifício pelo meio e colocar as metades umas defronte das outras quando um pacto era concluído para que as partes pactuais pudessem passar entre os pedaços daqueles animais sacrificiais como um sinal e juramento da fidelidade delas. Quando o Senhor concluiu seu pacto com Abraão, de acordo com Gênesis 15:9-17, ele se adaptou a esse costume. Contudo, de acordo com essa passagem em Gênesis, somente o Senhor passou pelos pedaços dos animais sacrificiais, Abraão não o fez. Isso pode apenas significar que o Senhor não concluiu ou contratou um pacto com Abraão, mas simplesmente o estabeleceu. Esse é o ensino real da Escritura. Deus estabelece seu pacto. O pacto é seu. Nunca o homem se torna uma parte com Deus na conclusão de um pacto. Essa é a natureza do pacto. Como pode a criatura ser uma parte ao lado do seu criador? Como pode o homem, que não possui absolutamente nada de si mesmo, que deve receber tudo de Deus, alguma vez aparecer como uma parte contratante em relação ao Altíssimo?
   Por exemplo, exatamente o que se quer dizer quando se fala em acordo? Isto implica em que as alianças bíblicas sejam "bilaterais"? Não se pode negar que a idéia de pacto traga consigo, no seu sentido mais natural, a bilateralidade, ou seja, duas partes são envolvidas em um pacto. Vários pactos acontecem entre duas pessoas, nações ou grupos na narrativa bíblica (ver Js 9.15; 1 Sm 20.16; 2 Sm 3.12-21; 5.1-3; 1 Rs 5.12); em certos casos um pacto é feito para resolver uma disputa entre partes (Gn 21.22-32; 26.26-33; 31.43-54).
   Centenas de vezes o substantivo aparece no contexto de um pacto entre Deus e seres humanos. Como, nesse contexto, entender a bilateralidade? Um pacto implica sempre em igualdade entre as partes? Certamente que não. A bilateralidade[3], no contexto do pacto entre Deus e homens, implica tão somente em que duas partes estão envolvidas, mas não que exista a igualdade entre essas partes. Teólogos têm chamado esse tipo de aliança "unilateral" de "monergista," ou seja, iniciada e garantida por Deus nos seus termos. Portanto, estamos falando de uma aliança que não envolve um acordo de duas partes, na qual não existe negociação de direitos e obrigações. Nesse sentido a aliança divino-humana é unilateral. É um compromisso feito pela iniciativa de Deus com relação à sua criação. O ser humano é um receptor da aliança divina. Isso se torna evidente no texto de Gênesis 17.2, que é traduzido para o português como — "Farei uma aliança entre mim e ti" — onde o verbo traduzido como "fazer" tem por raiz no hebraico o verbo "dar" (nathan), que nos daria, se traduzido literalmente, uma sentença sem sentido. No entanto, a força do argumento está no fato de que a raiz do verbo traduzido por "fazer" em português envolve algo que é dado: um pacto. O texto não reflete um acordo de duas partes iguais, com os mesmos direitos.
            De acordo com outros, o termo para pacto no Antigo Testamento significa um laço (vínculo) e deve ser derivado de uma palavra que significa “obrigação”. O fato é que o termo para pacto, que parece aproximadamente trezentas vezes no Antigo Testamento, tem mais de uma vez o significado de um testamento, e no grego é traduzido pelo termo διαθήκη, uma palavra que tem exatamente esse significado. 

            A TEOLOGIA PACTUAL NA CONFISSÃO WESTMINSTER

    DO PACTO DE DEUS COM O HOMEM - capítulo VII

I. Tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele, como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária condescendência da parte de Deus, a qual agradou-lhe expressar por meio de um pacto.
II. O primeiro pacto feito com o homem era um pacto de obras; nesse pacto foi a vida prometida a Adão e, nele, à sua posteridade, sob a condição de perfeita e pessoal obediência.
III. Tendo-se o homem tornado, pela sua queda, incapaz de ter vida por meio deste pacto, o Senhor dignou-se a fazer um segundo pacto, geralmente chamado o pacto da graça. Neste pacto da graça ele livremente oferece aos pecadores a vida e a salvação através de Jesus Cristo, exigindo deles a fé, para que sejam salvos, e prometendo o seu Santo Espírito a todos os que estão ordenados para a vida, a fim de dispô-los e habilitá-los a crer.
            Pacto das Obras[4] O texto fala de dois pactos feitos com o ser humano. O primeiro foi feito com Adão antes da queda e é chamado de pacto de obras. No segundo, feito depois da queda, a salvação e a vida são oferecidas a "todos os que estão ordenados para a vida." Este é chamado de pacto da graça. Esses dois pactos estão "centralizados em torno do primeiro Adão e do segundo Adão, que é Cristo."[5] A teologia esposada na CFW é conhecida como teologia pactual, um sistema teológico em que o conceito de pacto serve como estrutura básica.
    Pacto da Criação[6] Robertson, Van Groningen e Dumbrell. O interesse especial na obra desses três teólogos contemporâneos está na exposição que fazem do chamado pacto da criação, uma terminologia usada entre os primeiros reformados. O uso dessa terminologia, mais abrangente que a terminologia da CFW (pacto de obras), permite-nos entender alguns aspectos mais amplos da teologia pactual, ou seja, o que sempre houve foi a graça com elemento no Mitte[7].
O substantivo berith (pacto) não aparece senão no capítulo 6 de Gênesis, estando, portanto, ausente da narrativa da criação e da queda (Gn 1–3). Como, então, falar de um "pacto da criação" se o termo sequer aparece na narrativa? Que evidências podem ser apresentadas?
Partindo-se do conceito da aliança como elo, laço, vínculo e relacionamento de amor, iniciado e administrado por Deus, verificamos que essa idéia é intrínseca na narrativa da criação. Destacamos, primeiramente, que ao criar Deus manteve um relacionamento com sua criação. Ele não só tinha o governo absoluto sobre ela, mas também mantinha tudo o que havia criado. De um dia da criação para o outro (dia um para o dia dois, dia dois para o dia três, etc.), Deus sustentava aquilo que, aparentemente, não podia ter auto-sustentação (pelo menos do ponto de vista do que chamamos de leis naturais). Assim, até que a criação estivesse completa, Deus estava sustentando de forma extraordinária a sua criação. Depois que ele terminou de fazer tudo o que havia proposto, a criação, com suas leis naturais, passou a se manter. Mesmo assim, sabemos que ele é o "sustentador de todas as coisas" (Hb 1:3).
Em segundo lugar, ao criar o ser humano (Gn 1.26-28), Deus o criou à sua "imagem e semelhança". Incluídas nessa imagem e semelhança estão as habilidades de comunicação e relacionamento (e suas implicações como pensar, obedecer, discernir, e fazer opções), como o texto bíblico deixa bem claro a partir do segundo capítulo de Gênesis. Essa imagem e semelhança permite que o homem criado se relacione com o Criador. Temos, portanto, presente no relato da criação, a possibilidade do desenvolvimento de relacionamentos.
Em terceiro lugar, aprendemos da narrativa da criação que Deus deu responsabilidades ao ser humano (macho e fêmea). Entre elas se encontram obrigações de cuidar e desenvolver o que Deus havia colocado em suas mãos:
Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar... Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles (Gn 2.15,19). Ao casal são dadas as responsabilidades de procriação, multiplicação e domínio refletidas nas bênçãos dadas a eles.
Em quarto lugar, verificamos que nesse relacionamento existe a verbalização clara da parte de Deus do que seriam as bênçãos e as possíveis maldições do pacto. Bênçãos e maldições são parte integrante dos pactos entre soberanos e vassalos no antigo Oriente Próximo.
E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra (Gn 1.28). E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gn 2.16-17).
As bênçãos são dadas ao homem e expressas em forma imperativa no verso 28: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei, sujeitai, dominai. Em todos esses exemplos percebemos que o Criador está expressando à sua criatura mandatos em três áreas de relacionamento: espiritual, social e cultural. Essas características (soberania, sustento, relacionamento, responsabilidade, bênçãos e maldições) formam o conjunto de elementos do chamado pacto da criação.
          Pacto da Graça - Mas afinal, o que é o Pacto da Graça? Na verdade, não estamos falando de um outro pacto. O Pacto da Graça ainda é aquele antigo pacto de vida eterna firmado com Adão, mas com o seguinte aspecto: nesse pacto todas as bênçãos e recompensas não foram conquistadas pelo homem, tudo nos é concedido de graça. Deus não exige mais nada de nós porque Jesus já cumpriu nossa parte no pacto. Então, só podemos chegar a uma conclusão: o Pacto da Graça é a dispensação das bênçãos oferecidas a Adão no primeiro pacto, as quais ele não conquistou por causa da queda, sendo essas mesmas bênçãos conquistadas por Jesus e outorgadas a nós pela fé na condição de herdeiros, (Rm 8:17). O Pacto da Graça consiste então naquele novo relacionamento que Deus estabeleceu com o homem por meio de Jesus, no qual, o homem sendo pecador, é sujeito totalmente passivo em relação à sua salvação. Tudo o que diz respeito à salvação do homem só é possível pela mediação de Jesus. Eis a razão porque chamamos de Pacto da Graça, porque nele tudo é de graça, somos apenas herdeiros de uma herança que nos é concedida gratuitamente em Cristo. Não fizemos absolutamente nada para sermos merecedores das bênçãos. Deus tinha todas as razões para nos condenar, pois éramos merecedores de Sua ira, dignos apenas da condenação eterna, mas o Senhor renovou eficazmente Seu pacto de vida eterna que tem como causa o Seu amor e misericórdia, e nos concede, novamente, agora em Cristo, o direito de vida eterna que havíamos perdido em Adão, (I Co 15:22).
   Essas bênçãos conquistadas por Jesus são comunicadas a nós por meio da regeneração operada por Deus e segundo a Sua vontade, (Jo 1:13; Jo 6:44), regeneração essa que produz em nós a fé, por meio da qual somos justificados, ou seja, Deus cancela nosso débito contraído em Adão (nossa condenação) e lança um crédito em nossa conta (a vida eterna). Essas bênçãos nos são comunicadas de tal maneira que somos convertidos e santificados, e temos paz com Deus, tendo a garantia de perseverarmos em toda nossa caminhada até a glória, (Jo 10:28,29; Rm 8:31:39). O que não devemos confundir a esta altura é o papel da fé. Não somos justificados por causa da nossa fé, e sim por meio da fé. A fé não é a base da nossa justificação. Ela é apenas o instrumento pelo qual Deus nos considera dignos da vida eterna. Essa fé é algo que provém de Deus e não está inerentemente no homem, (Ef 2:8). Se a fé fosse a base da nossa justificação, isto é, se fôssemos salvos por causa da nossa fé, essa fé seria uma obra meritória, então a justificação seria por obras e não por fé. Mas a Palavra de Deus nos ensina que só a obra de Cristo é a única obra meritória para nossa salvação, e a fé, um dom dado por Deus, é o meio pelo qual nos apropriamos dessa obra. Assim, todas as bênçãos do pacto da graça nos são dadas como dádiva e não como salário, como se merecêssemos.      
             O QUE CRÊ A TEOLOGIA DISPENSACIONALISTA?
        Pode ser difícil sumarizar a teologia dispensacionalista como um todo, pois nos últimos anos têm se desenvolvido múltiplas formas da mesma. Em geral há três perspectivas principais.
    Primeiro, o dispensacionalismo vê Deus como estruturando seu ralacionamento com a humanidade através de diferentes dispensações, ou arranjos administrativos. Cada dispensação é um “teste” da humanidade para ser fiel à revelação particular dada naquele tempo. Comumente se fala em sete dispensações, a saber: inocência(antes da queda); consciência (Adão a Noé); promessa(Abraão a Moíses); Lei (Moíses a Cristo); Graça ( Pentecoste ao Arrebatamento) e o Milênio.
          Segundo, o dispensacionalismo sustenta  uma interpretação literal da Escritura. Isto não nega a existência de figuras de linguagem e linguagens não-literais da Bíblia, mas antes, significa que há um significado literal por detrás das passagens figuradas.
          Terceiro, como resultado desta interpretação literal da Escritura, o dispensacionalismo sustenta uma distinção entre Israel e a igreja. Nesta perspectiva, as promessas feitas a Israel no AT não foram pretendidas como profecias sobre o que Deus faria espiritualmente pela igreja, mas seria literalmente cumprida pelo próprio Israel (principalmente no milênio). Por exemplo, a promessa da terra que um dia Deus vai restaurar plenamente Israel à Palestina. Em contraste, os não-dispensacionalistas tipicamente vêem a promessa da terra como pretendida por Deus para profetizar, na forma obscura do antigo pacto, a grande realidade de que Ele um dia faria da igreja inteira, judeus, gregos e gentios herdeiros da promessa do reino. Destarte, o dispensacionalista crê em dois povos de Deus distintos.           
            TEOLOGIA BÍBLICA PACTUAL
            A Teologia Bíblica como disciplina acadêmica tem o seu campo próprio de ação, podendo ser resumido como uma divisa do conhecimento teológico que trata da revelação estudada dentro do seu processo histórico.
            Como o assunto da teologia bíblica é o processo da revelação divina, muitos estudiosos têm procurado definir um tema central, unificador, que seja um guia norteador no estudo da mesma. No presente estudo adotaremos como centro unificador três temas integrados: o Reino, o Pacto e o Mediador, como exposto e defendido por Van Groningen no seu livro “Criação e Consumação.” Os limites da nossa reflexão se estenderão, resumidamente, de Adão até Moisés.
            I – O MITTE
    Não se discute o fato de que as Escrituras revelam Deus e Jesus Cristo. Mas elas revelam mais. Elas revelam Deus como o Criador Triúno, Governador e Provedor do seu reino. Revelam que Deus é um Senhor pactual e que Jesus Cristo é o mediador do pacto e, conseqüentemente, o agente do reino. O cordão dourado que unifica e integra toda a mensagem escriturística, e que por essa razão é o mitte, consiste de três cordões inegavelmente dominantes: o reino, o pacto e o mediador. Todos os muitos ensinos e referências nas Escrituras são integralmente relacionados ou são aspectos essenciais destes três cordões.
    O texto bíblico expõe, consistentemente, estes três cordões diante de nós. Jesus Cristo, quando estava na terra, resumiu a causa a favor deste complexo triplo de conceitos quando pregou o reino e se declarou o mediador do pacto. Estes três conceitos inter-relacionados são explicados no Novo Testamento, mas são revelados e consistentemente desenvolvidos no Antigo Testamento. Atuam em toda a Bíblia como o meio básico revelador, administrativo e consumador dentro do plano do Deus Triúno, para o estabelecimento, a manutenção, a redenção e a consumação de toda sua criação.
  O conceito de reino é inclusivo e abrange tudo. Quatro aspectos integrais são fatores essenciais. O reino, em primeiro lugar, implica na presença e envolvimento do Rei. O Deus Triúno é o Rei; como tal, ele é o Criador Soberano, Governador, Mantenedor, Juiz e Consumador. Jesus Cristo recebeu a posição monárquica e atua como o redentor. Quando a tarefa redentora estiver completa, ele colocará a monarquia nas mãos do Pai (1 Co 15.24). Segundo, o reino inclui o domínio. O domínio é o que foi criado, trazido à existência, e governado. Isto inclui todo o cosmos, com suas dimensões inorgânicas, orgânicas, morais e espirituais. Terceiro, o reino inclui o trono, o assento do poder, ou o centro do qual o rei atua. Conseqüentemente, o tabernáculo, o templo, o palácio e Jerusalém são símbolos e tipos de um centro celestial. Finalmente, o reino inclui a atividade efetiva de domínio. Estão incluídos o exercício do poder e autoridade da realeza, as atividades judiciais, e a execução destes.
   É fácil entender a razão pela qual alguns estudiosos têm postulado o reino como o Mitte das Escrituras. Em certo sentido, pode se dizer que o reino é o tema que inclui tudo, que unifica, porque o pacto e o mediador são aspectos dominantes dele. Esses temas são tão importantes que devem ser realçados e, conseqüentemente, descritos como sendo dois dos três cordões que formam o cordão dourado.
   O reino não existe nem atua sem o pacto, pois o pacto, para ser e atuar como pacto, tem seu instrumento, o mediador. Estes três conceitos centrais são representados de várias formas através das Escrituras. Foram utilizados símbolos e tipos. Por exemplo, o reino israelita é um símbolo e tipo do reino eterno de Deus; o casamento é um símbolo do pacto. Reis, sacerdotes, profetas, os sacrifícios do tabernáculo, outros objetos e eventos simbolizam o mediador.
   A idéia de um pacto é citada repetidamente tanto no Antigo como no Novo Testamento. Deve ficar claramente entendido que o termo pode ter várias denotações específicas como, por exemplo, um acordo entre reis (1 Re 5.12) ou entre marido e mulher (Ml 2.14).
  Nesta conjuntura, poderá ser útil um breve sumário para mostrar ao que pacto se refere em Gênesis 1-11.21. O pacto deve ser considerado, antes de tudo, um relacionamento entre duas partes. Este relacionamento foi instituído para ser um vínculo sólido e duradouro. Ele foi um vínculo sólido de vida e amor entre Yahweh e a humanidade; isto é, o vínculo juntou as duas partes vivas em que a vida foi assegurada e o amor seria aspecto essencial desse vínculo vivo. Este vínculo de vida e amor incluía promessas, certezas, obrigações (mandatos, leis), e advertências (maldições), que atuavam para preservar o vínculo e serviam para fazer com que fosse, de fato, um relacionamento eficaz. O vínculo foi validado e assegurado através da palavra solene (ou juramento) de Yahweh, que é imutável. Para a humanidade envolvida no pacto com Yahweh, um sinal foi incluído, o arco-íris, da mesma forma como o sábado havia sido na conclusão das atividades criadoras.
  O pacto que Yahweh estabeleceu com Adão e Noé tinha uma referência mais ampla do que o aspecto pessoal. O pacto da criação incluía o relacionamento de Yahweh com a criação e, particularmente, o relacionamento de Adão e Eva, e de Noé e sua descendência com a criação. Esta dimensão mais ampla e inclusiva do vínculo fez, eficazmente, com que o pacto fosse também um meio de administração. Adão, Noé e suas descendências, em seus papéis de vice-gerentes, foram feitos administradores, eles tinham que dominar, cultivar, estabelecer famílias, ser frutíferos e encher a terra. Depois que o pecado foi introduzido, o relacionamento de amor e vida dentro do palco criacional foi restaurado e confirmado por Yahweh; ele acrescentou ao relacionamento e sua administração a dimensão redentora. A redenção deveria ser executada e se tornar uma realidade assegurada através do cumprimento das obrigações que Yahweh havia estipulado e através das promessas e maldições que havia enunciado.
  O terceiro cordão do cordão dourado é o mediador pactual; os termos "agente" e "servo" servem bem em certos contextos. O âmago do pacto centraliza-se no relacionamento entre Yahweh e os portadores de sua imagem, o primeiro Adão e sua descendência e o segundo portador da imagem, o Messias (Cl 1.15; Hb 1.3). O mediador recebeu os mandatos e as responsabilidades de cumprir a vontade, o plano, a meta e os propósitos de Yahweh, que iniciou e manteve seu pacto. Desta forma, os primeiros mediadores, Adão, Eva e posteridade, foram chamados para serem administradores pactuais sob Yahweh, dentro do reino cósmico. Quando Adão e Eva desobedeceram e violaram seu relacionamento de vida e amor, Yahweh proclamou imediatamente que a semente da mulher deveria ser o administrador do pacto da redenção também. Assim como Noé serviu como um mediador do pacto e, dessa forma, como um precursor e tipo de Cristo, assim também através da era do Antigo Testamento, outros serviram, incluindo Abraão, José, Moisés, Josué, os juizes, os profetas, sacerdotes e reis. Em um sentido real, todos os descendentes de Noé e Abraão foram chamados para ser mediadores, em particular a nação de Israel. Todos estes precursores e tipos humanos falharam, alguns drasticamente. Outros serviram de uma forma aceitável a despeito de suas fraquezas e pecados.
  Concluindo esta discussão sobre o Mitte, entendendo que o cordão dourado, que unifica e integra a mensagem bíblica e, conseqüentemente, também a teologia bíblica, consiste do reino de Yahweh e do pacto que ele estabeleceu com seus mediadores que portam sua imagem. Todos os aspectos da mensagem bíblica estão relacionados a este cordão dourado, e o sentido e significado deles são estabelecidos através de seu envolvimento ou contribuição para a explicação do reino, do pacto e do mediador.
               II – O CRIADOR E A CRIAÇÃO
            Apesar da ausência dos termos Rei e Reino no relato da Criação (Gn.1,2), a idéia de Reino está presente aqui e em toda a Escritura, principalmente no período da monarquia em Israel (Sl.103.19). Evidentemente elas não apresentam nenhuma definição absoluta para Reino de Deus. Mas se considerarmos o conceito mais básico de Reino, o que implicaria na presença de um Rei que governa soberano seu Reino, então não há dúvidas de que Deus Yahweh é o Rei absoluto e soberano sobre todas as coisas e nada escapa do seu domínio.
            Na criação, mais do que em qualquer outro registro bíblico, é possível perceber Deus Yahweh usando suas prerrogativas reais. Em primeiro lugar como soberano absoluto Deus Yahweh criou, não por constrangimento ou necessidade, mas por livre vontade. Há muitos conceitos correlatos que poderíamos usar para identificarmos a motivação de Yahweh para criar, sendo que, aquela mais inclusiva é a de que Ele criou para revelar sua glória com vistas ao seu próprio deleite e adoração das suas criaturas (Ef.1.11).
            Em segundo lugar, o resultado da ação criadora do Rei foi o Reino Cósmico. A diversidade dos elementos presentes neste reino e a maneira como eles se relacionam harmoniosamente revelam a sabedoria de Yahweh. Deve-se lembrar que, ao criar este reino cósmico, Ele iniciou um processo, o que implica num percurso linear, numa consumação gloriosa onde o cosmos é o palco para Deus Yahweh se revelar cada vez mais glorioso. Nesse particular devemos notar que Ele não apenas o criou, mas o mantém e dirige de acordo com seus planos e projetos reais.
            Em terceiro lugar este reino cósmico foi criado para funcionar a partir de leis e modelos implantados pelo próprio Rei. Entre estes podemos destacar a maneira como este Rei decidiu relacionar-se com seus súditos: o pacto. Introduzido divinamente pela atividade monergística e unilateral, mas seguido pela responsabilidade do homem em obedecer aos mandatos e as ordenanças presentes na estrutura da criação do reino cósmico.
            O primeiro é o mandato cultural. Nele o homem é convocado a se relacionar com os cosmos e exercer o papel da sujeição e domínio (Gn.1.28), guarda e cultivo (Gn.1.17). Extrair o máximo do cosmos para produzir, por meio das capacidades que foi dotado, o habitat em que a vida humana deveria se desenvolver. O segundo é o mandato social. Ao criar homem e mulher, Deus Yahweh ordenou como deveria ser o relacionamento entre eles, forneceu princípios para o convívio social e determinou-lhes a fecundidade. O terceiro é o mandato espiritual. Nele, homem e mulher, deveriam responder ao Criador num relacionamento de vida e amor. Para tanto eles foram criados com suficientes condições (Imago Dei) para exercer este mandato. Desfrutando dos benefícios da comunhão com o criador e alertados quanto às implicações da quebra deste vínculo relacional com aquele que é Espírito (Gn.2.16,17).           
            III – OS VICE-GERENTES E O REINO PARASITA
            Após analise no registro da criação de Adão e Eva (Gn.1.26-30; 2.7-25), fica claro sua distinção em comparação com o restante da criação. Quanto a eles é mencionada uma deliberação específica precedendo sua criação. São designados como Imagem e Semelhança do Criador, o que implica numa relação-pactual de vida e amor com privilégios e obrigações. Além do fato de terem recebido comissionamento reais, tendo sido feitos vice-gerentes do Rei na criação para sujeitá-la e dominá-la.
            Tendo sido criados no jardim chamado Édem, gozavam de todos os privilégios e obrigações dispostos pelo Criador. Entre as obrigações estava à proibição de não comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Nesta ordem residia o teste de obediência do mandato espiritual. Desobedecer traria a ruína e a morte a eles e sua posteridade, o que de fato veio a acontecer.
            Não pode passar despercebido o agente da tentação: a serpente, Satanás. Ainda que a sua origem não seja discutida no texto, ele é apresentado como aquele por intermédio de quem penetrou na criação de Yahweh o mal e o pecado. Por conta disso, um outro reino tomou forma e se instalou no reino de Yahweh: o reino parasita de Satanás. É parasita porque não tem capacidade de existir por si próprio, mas depende de outro organismo vivo, o reino de Yahweh. Dessa maneira este reino penetrou na criação de Deus em todas as suas dimensões, principalmente no coração dos homens.
            Cada um dos envolvidos na cena da tentação no Éden recebeu sua sentença condenatória. Todavia, a maldição não finalizou ao reino de Yahweh, por causa da excelência das suas virtudes, ele mitigou a maldição e ainda anunciou seu programa redentivo, dando inicio assim ao pacto da redenção.
            IV – O REINO, O PACTO E O MEDIADOR: DE ADÃO A MOISÉS
3.1 Em Adão
            Deus Yahweh havia garantido a continuidade da raça humana quando mitigou as maldições do pacto. Mas ele foi além quando pré-anunciou o Evangelho: a boa notícia da restauração do seu reino cósmico dos efeitos da entrada do mal e do pecado. Um mediador que viria da semente da mulher foi anunciado como aquele que iria destruir o reino parasita. Ao mesmo tempo proclamou que, durante toda a história iria se desenvolver uma antítese: a semente pactual, estabelecida pela graça de Yahweh numa relação de vida e amor; e a semente de Satanás, homens e mulheres a serviço do reino parasita.
3.2 Em Noé (Gn.5.1-11.9)
            Nos dias de Noé as condições morais, sociais e espirituais revelavam claramente a existência da antítese entre o Reino de Yahweh e o Reino Parasita de Satanás. O mandato cultural era cumprido por ambos, enquanto no social o reino parasita deixava marcas indeléveis, de maneira que o mandato espiritual era ignorado pela maioria que estava imersa nas dobras e recantos do reino parasita de Satanás.
            Deus Yahweh usando suas prerrogativas reais anuncia o julgamento, a maldição do pacto, evidenciando que a despeito da atuação do reino parasita, o reino cósmico de Yahweh mantinha-se sobre seu controle e governo soberano. Noé, gracioso aos olhos de Yahweh, é usado por Ele para ser um agente pactual, um mediador. Através da arca, Deus Yahweh preservaria e continuaria a vida, administrando concomitantemente o pacto criacional e redentivo. Por meio desta ação manteria o Pacto e dava prosseguimento ao seu projeto. O reino parasita continuaria, como pode ser observado na vida dos filhos de Noé, mas a linhagem pactual teria continuidade na descendência de Sem, dela sairia o patriarca Abraão.
3.2 Em Abraão (Gn.12-25)
            A eleição e chamado de Abraão indicam claramente a soberania de Yahweh, Rei cósmico. Em sua intenção de levar adiante o pacto criacional e redentivo, por livre vontade escolhe um homem que vivia no contexto da atuação do reino parasita. A vocação de Abraão sinaliza a própria natureza pactual do relacionamento de Yahweh com seus súditos, monergista e unilateral na sua iniciativa.
        Os detalhes da chamada de Abraão (Gn.12.1-3) dão clara compreensão dos três temas integrados: Reino, Pacto e Mediador. É possível perceber a intenção régia de Yahweh na formação visível e nacional de um povo do Pacto – descendentes de Abraão. Por meio deles a redenção alcançaria níveis universais. Também é evidente que Abraão estava sendo colocado como uma pessoa pactual, um mediador.
          A resposta de Abraão, seu desprendimento em obedecer prontamente, a circuncisão e os demais eventos da sua vida apontam o vínculo de vida e amor estabelecido na sua relação com Yahweh. Tornando-se um modelo de fé para as demais gerações na linhagem pactual em antítese com o reino parasita.
3.3 Em Isaque, Jacó, Judá e José (Gn.26.1-50.26)
            Em Isaque temos o cumprimento da promessa feita a Abraão. Seu nascimento excepcional, devido a esterilidade de Sara, fornecem claras evidências do poder régio de Yahweh sobre as leis do seu reino cósmico. Na ocasião do conflito de Sara com sua serva Hagar e seu filho Ismael, fica exposto que Isaque é o pilar sustentador que continuaria a linhagem pactual.
            Em Jacó observamos que mais uma vez a soberania de Yahweh fica em relevo, quando ele, Jacó, é escolhido antes do nascimento para engrossar as fileiras dos agentes pactuais de Yahweh. A influência do reino parasita também são destacadas no caráter e personalidade de Jacó, no entanto, seu encontro transformador com Yahweh produz o vínculo de vida e amor e o modifica radicalmente, de maneira que seu novo nome, Israel, passará a identificar perpetuamente o povo da Aliança.
         Em José, Deus Yahweh exerce seu controle sobre o destino das pessoas. Esse controle ultrapassa os limites individuais, de maneira que o curso das nações está condicionado ao controle providencial de Yahweh. Providência que age para o benefício do povo do pacto, como pode ser observado na qualidade mediatária de José. É no final do registro sobre José que encontramos mais uma vez Jacó na qualidade de mediador e porta voz de Yahweh (Gn.48). E na sua mensagem profética Judá é apresentado como o personagem régio, na sua linhagem está garantida, mais uma vez, a semente da mulher que iria esmagar a cabeça da serpente.
3.4 Em Moisés (Ex.1.1-18.27)
            Muito tempo havia se passado e o povo do pacto estava preservado. Todavia, é no ambiente egípcio que os poderes antitéticos do reino parasita assumem contornos excepcionais. Faraó, agente do reino parasita de Satanás, percebendo que as crianças israelitas nasciam vigorosas e o número crescia cada vez mais, submete o povo a serviços pesados e providencia que o crescimento da prole israelense seja interrompido através da morte das crianças do sexo masculino.
            É nesse contexto que Deus Yahweh lembra-se de todas as promessas pactuais, depois de uma série de acontecimentos preparatórios, surge o agente pactual de Yahweh, Moisés. O reino parasita é desafiado e Yahweh, através do seu agente, usa seus poderes régios e humilha-o, juntamente com seus deuses, através de diversas pragas. O povo goza da redenção através do sangue, o cordeiro é o substituto dos primogênitos israelenses e dessa maneira a realeza de Yahweh e o pacto criacional e redentivo tem curso assegurado.
CONCLUSÃO
            Dissemos que a teologia bíblica versa sobre o estudo da revelação em seu processo histórico. Nesse processo três temas integrados estão em relevo: o reino, o pacto e o mediador. É nesse cordão de três fios que Deus vai preservando e mantendo o pacto criacional e redentivo. A despeito da presença do reino parasita de Satanás, os propósitos de Yahweh seguem livre curso, assegurado pela sua soberania e guiado por sua sabedoria. Dessa maneira, o cosmos se torna palco para a revelação de Jesus Cristo e, por conseguinte, a gloriosa consumação de todas as coisas.

REFERÊNCIAS E NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
GRONINGEN G. V. Criação e Consumação. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. Vol. 1.
________________Revelação Messiânica no Velho Testamento.Campinas: LPC, 1995.
________________Família da Aliança. São Paulo: Cultura Cristã, 1997
MEISTER, M. F. Fides Reformata 1:1 (1996), 5-10, e Fides Reformata 2:1 (1997), 29-38.
ROBERTSON, P. O. O Cristo dos Pactos. Campinas: LPC, 1997.


[1] O substantivo pacto significa, segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, "ajuste", "convenção" ou "contrato". Estes três substantivos são também usados para definir o significado do substantivo aliança. Diferentes versões da Bíblia em português usam os substantivos pacto, aliança, acordo e concerto para traduzir o substantivo hebraico berith que aparece cerca de 290 vezes no Antigo Testamento. Para todos esses sinônimos a idéia básica que encontramos é a de união entre duas partes, um pacto ou acordo bilateral. No entanto, até mesmo a etimologia do substantivo é grandemente discutida. Basta passar os olhos por alguns dicionários de teologia ou livros que tratem especificamente do assunto para verificar que há entre os estudiosos grande discordância. As posições mais defendidas são: (1) a de que berith é derivada do assírio birtu, que significa "laço", "vínculo"; (2) a de que o substantivo tem origem na raiz de barah, "comer," que aparece poucas vezes no Antigo Testamento (2 Sm 3.35; 12.17; 13.5; 13.6; 13.10; Lm 4.10), e está relacionado com a cerimônia que selava um acordo ou relacionamento entre partes; (3) a de que o substantivo está ligado à preposição bein "entre."De todas estas a primeira posição é a mais aceita entre os estudiosos do Antigo Testamento.
[2] Reformed Dogmatics – Volume 1, Herman Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, pgs. 461-2.
[3] Esse tipo de pacto não é algo sem precedentes na história. Ele é ilustrado pelos pactos do antigo Oriente Próximo entre conquistadores e conquistados, reis e vassalos. Nesses casos, os conquistados, quando entravam em pacto com os conquistadores, não tinham o direito de propor qualquer coisa nos termos do pacto. Este tipo de pacto pressupõe a figura de uma parte "soberana". Um dos lados tem a vantagem do domínio e se propõe a cumprir um determinado papel; o outro, tendo também um papel a cumprir, se submete às exigências pactuais. No pacto divino-humano encontramos a relação criador-criatura, rei soberano-servo.
[4] A história da doutrina do pacto de obras é longa e controvertida. O reconhecimento de um pacto antes da queda já aparece nos escritos de Agostinho, o bispo de Hipona, no quarto século: "O primeiro pacto, que foi feito com o primeiro homem, é este: No dia em que dela comerdes, certamente morrerás. "  Agostinho, discutindo a questão dos pactos bíblicos, afirma que "muitas coisas são chamadas de pactos de Deus além daqueles dois grandes, o novo e o velho..." Porém, ainda que reconhecida desde cedo por teólogos como Agostinho, a doutrina do pacto de obras só foi desenvolvida bem mais tarde, pelos reformadores do século XVI. A nomenclatura pacto de obras, adotada pela CFW, não foi consensualmente aceita pelos reformadores e primeiros reformados. Uma nomenclatura diversa surgiu logo no princípio (ex: pacto da criação). Mais adiante, na elaboração do conceito bíblico de pacto, a questão do nome será considerada. Assim como a questão do nome da doutrina foi controvertida no princípio, a sua origem como sistema teológico é motivo de controvérsia nos dias atuais.
[5] A Confissão de Fé, o Catecismo Maior, o Breve Catecismo, 1ª ed. especial (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991), 41-43
[6] Outras evidências levantadas para o pacto da criação são os textos de Oséias 6.7; Jeremias 33.20, 25, e Gênesis 6.18. Sem muitos detalhes exegéticos, exponho abaixo as razões principais porque se pensa que esses textos falam de um pacto da criação. Oséias 6.7 fala da transgressão de Adão contra o pacto: "Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim." Uma leitura simples e direta do texto reflete que havia um pacto entre Deus e Adão, portanto, um pacto pré-queda, que pode ser tido como o pacto da criação. Essa leitura reflete o pressuposto de que os escritores bíblicos tinham conhecimento de outros escritos bíblicos, anteriores e contemporâneos. Oséias estaria, portanto, falando do pacto da criação. Para alguns estudiosos, entretanto, isto não é admissível, considerando vários pressupostos diferentes do exposto acima. Eles adotam uma leitura diferente do texto, como a Bíblia na Linguagem de Hoje "Mas na cidade de Adã o meu povo quebrou a aliança que fiz com ele e ali foi infiel a mim." De fato, existe uma cidade bíblica com esse nome (Js 3.16). No entanto, para que o texto de Oséias 6.7 seja traduzido como a Bíblia na Linguagem de Hoje sugere, é necessário que se faça uma emenda do texto hebraico, substituindo a preposição "como" por "em," sem que haja qualquer evidência da necessidade dessa troca. Ainda mais, não se sabe de um pecado cometido pelo povo de Israel ao passar por aquele lugar que fosse registrado e então mencionado pelo profeta. Assim, esta proposta de leitura não acha qualquer argumento sustentável. Outra possível leitura provêm da tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX), que traduz a expressão "como Adão" por "como homens." Nesse caso, estaria implícito um pacto entre Deus e a humanidade.
[7] Palavra Alemã que define o centro unificador ou cordão de ouro, a saber: Reino, Pacto e Mediador.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

PREGAÇÃO DA PROSPERIDADE: ENGANOSA E MORTÍFERA





Texto de John  Piper

Quando leio sobre pregação de prosperidade nas igrejas, minha resposta é: “Se não estivesse dentro do Cristianismo, eu não desejaria estar.” Em outras palavras: se essa é a mensagem de Jesus, não, obrigado!Atrair as pessoas a Cristo prometendo riqueza é tanto enganoso como mortífero. É enganoso porque quando o próprio Jesus nos chamou, ele disse coisas como: “Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:33). E é mortífero porque o desejo de ser rico faz com que as pessoas caiam “na ruína e perdição” (1 Timóteo 6:19). Assim, aqui está o meu apelo aos pregadores do evangelho.

1. Não desenvolva uma pregação que torne difícil as pessoas entrar no céu.

Jesus disse: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” Seus discípulos ficaram estupefatos, como muitos no movimento de “prosperidade” deveriam ficar. Assim, Jesus aumentou ainda mais o assombro deles dizendo: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”. Eles responderam em descrença: “Então, quem pode ser salvo?” Jesus disse: “Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível” (Marcos 10:23-27). Minha pergunta para os pregadores da prosperidade é: Por que você desejaria desenvolver um foco ministerial que torna difícil as pessoas entrar no céu?

2. Não desenvolva uma pregação que atice desejos suicidas nas pessoas.

Paulo disse: “De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores” (1 Timóteo 6:6-10).

Assim, minha pergunta para os pregadores da prosperidade é: Por que você desejaria desenvolver um ministério que encoraja as pessoas a se atormentarem com muitas dores e se afogarem na ruína e perdição?

3. Não desenvolva uma pregação que encoraje a vulnerabilidade à traça e à ferrugem.

Jesus adverte contra o esforço de ajuntar tesouro na terra. Isto é, ele nos manda ser doadores, e não guardiões. “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam” (Mateus 6:19).

Sim, todos nós guardamos algo. Mas dada a nossa tendência inerente em todos nós para com a ambição, por que deveríamos tirar o foco de Jesus e invertê-lo totalmente?

4. Não desenvolva uma pregação faça trabalho duro significar acúmulo de riqueza.

Paulo disse que não deveríamos roubar. A alternativa era trabalhar duro com as nossas próprias mãos. Mas o propósito principal não era meramente acumular ou mesmo ter. O propósito era “ter para dar.” “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Efésios 4:28). Isso não é justificação para ser rico a fim de dar mais. É um chamado para fazer mais e acumular menos, para que possa dar mais. Não há razão pela qual uma pessoa que ganha R$ 500.000,00 por ano deva viver diferentemente de uma pessoa que ganha R$ 200.000,00. Descubra um estilo de vida moderado; corte os seus gastos supérfluos; então, dê o restante.

Por que você desejaria encorajar as pessoas a pensar que elas deveriam possuir riqueza para serem um doador generoso? Por que não encorajá-las a manter suas vidas mais simples e serem um doador ainda mais generoso? Isso não adicionaria à generosidade deles um forte testemunho que Cristo, e não as possessões, é o seu tesouro?

5. Não desenvolva uma pregação que promova menos fé na promessa de Deus ser para nós o que o dinheiro não pode ser.

A razão do escritor aos Hebreus nos mandar estarmos contentes com o que temos é que o oposto implica menos fé nas promessas de Deus. Ele diz: “Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?” (Hebreus 13:5-6).

Se a Bíblia nos diz que estarmos contentes com o que temos honra a promessa de Deus nunca nos abandonar, por que desejaríamos ensinar as pessoas a desejarem ser ricas?

6. Não desenvolva uma pregação que contribua para que o seu povo fique sufocado até a morte.

Jesus adverte que a palavra de Deus, que tem o intento de nos dar vida, pode ser sufocada pelas riquezas. Ele diz que isso é como uma semente que cresce entre espinhos, e é sufocada até a morte: “A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer” (Lucas 8:14).

Por que desejaríamos encorajar as pessoas a buscar a própria coisa que Jesus adverte que nos sufocará até a morte?

7. Não desenvolva uma pregação que tire o sabor do sal e coloque a candeia debaixo da vasilha.

O que existe nos cristãos que os torna o sal da terra e a luz do mundo? Não é a riqueza! O desejo e a busca por riqueza têm o mesmíssimo sabor e aparência do mundo. Isso não oferece ao mundo nada diferente daquilo que ele já crê. A grande tragédia da pregação da prosperidade é que uma pessoa não tem que ser espiritualmente vivificada para abraçá-la; a pessoa precisa ser apenas gananciosa. Ficar rico em nome de Jesus não é ser o sal da terra ou a luz do mundo. Nisso, o mundo simplesmente vê um reflexo de si mesmo. E se funciona, eles comprarão.

O contexto do discurso de Jesus nos mostra o que é o sal e a terra. Eles são a disposição alegre de sofrer por Cristo. Aqui está o que Jesus disse: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. Vós sois o sal da terra…Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5:11-14).

O que fará o mundo provar (o sal) e ver (a luz) de Cristo em nós não é que amamos a riqueza da mesma forma que eles o fazem. Antes, será a disposição e a capacidade dos cristãos amarem os outros mesmo durante o sofrimento, enquanto se regozijam porque a recompensa deles está no céu com Jesus. Isso é inexplicável em termos humanos. É sobrenatural! Mas atrair as pessoas com promessas de prosperidade é simplesmente natural. Essa não é a mensagem de Jesus. Ele não morreu para assegurar isso.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O ABSURDO DA VIDA SEM DEUS



O ser humano, escreve Loren Eisley, é o órfão cósmico. Ele é a única criatura no universo que pergunta: “Por quê?” Os outros animais têm instintos para guiá-los, mas o ser humano aprendeu a fazer perguntas. “Quem sou eu”, pergunta o ser humano. “Por que estou aqui? Para onde estou indo?” Desde o iluminismo, quando se desvencilhou das amarras da religião, o ser humano tentou responder a essas perguntas sem fazer referência a Deus. Só que as respostas que vieram não foram alegres, mas escuras e terríveis. “Você é o subproduto acidental da natureza, um resultado de matéria mais tempo mais mudança. Não há razão para a sua existência. A morte é tudo o que você tem pela frente.”

O homem moderno pensou que, depois que se livrou de Deus, tinha ficado livre de tudo o que o reprimia e sufocava. Em vez disso, descobriu que, ao matar Deus, matara também a si próprio. Isso porque, se não há Deus, a vida humana é um absurdo.

Se Deus não existe, tanto o ser humano quanto o universo estão inevitavelmente condenados à morte. O ser humano, como todos os organismos biológicos tem de morrer. Sem esperança de imortalidade, sua vida apenas caminha para o túmulo. Sua vida não passa de uma faísca na escuridão infinita, uma fagulha que aparece, reluz e morre para sempre. Comparada com a extensão infinita do tempo, a duração da vida do ser humano é apenas um momento infinitesimal; mesmo assim, isso é tudo da vida que ele jamais conhecerá. Por isso, cada um tem de defrontar-se com o que o teólogo Paul Tilich chamou de “a ameaça de não ser”. Pois apesar de eu saber que existo, que estou vivo, também sei que algum dia não existirei mais, que não serei mais, que morrerei. Esse pensamento é assustador e ameaçador: pensar que a pessoa que chamo de “eu” deixará de existir, que eu não serei mais!

Recordo perfeitamente a primeira vez que meu pai me disse que um dia eu haveria de morrer. De algum modo, quando criança esse pensamento nunca me havia ocorrido. Quando ele o disse, fiquei cheio de temor e de tristeza insuportável. E apesar de ele tentar várias vezes garantir-me que isso ainda estava muito distante, isso não me parecia importar. Mais cedo ou mais tarde, o fato inegável era que eu morreria e não existiria mais, e esse pensamento tomou conta de mim. Depois de algum tempo, como todos nós, cresci e simplesmente aceitei o fato. Aprendemos a conviver com o que é inevitável. Mas as impressões da crianças continuam verdadeiras. Como observou o existencialista francês Jean-Paul Sartre, algumas horas ou alguns anos não fazem diferença, uma vez que você perdeu a eternidade.

Venha cedo ou tarde, a perspectiva de morte e a ameaça de não ser é um horror terrível. Contudo, certa vez encontrei um estudante que não sentia essa ameaça. Ele disse que fora criado numa fazenda e estava acostumado a ver os animais nascer e morrer. A morte para ele era simplesmente natural – parte da vida, por assim dizer. Fiquei perplexo com nossas diferentes perspectivas da morte e tive dificuldades para compreender por que ele não sentia a ameaça de não ser. Anos mais tarde, creio que encontrei a resposta lendo Sartre. Ele observou que a morte não é ameaçadora enquanto a vemos como a morte do outro, de certo modo da perspectiva da terceira pessoa. É somente quando a interiorizamos e olhamos do ponto de vista de primeira pessoa – “minha morte; eu vou morrer” – que a ameaça de não ser se torna real. Sartre mostra que muitas pessoas nunca assumem essa perspectiva de primeira pessoa em meio à vida; pode-se até olhar para a própria morte da perspectiva da terceira pessoa, como se fosse a morte de outro ou até de um animal, como fez o meu amigo estudante. O significado existencial verdadeiro da minha morte, contudo, só pode ser entendido do ponto de vista de primeira pessoa, quando compreendo que vou morrer e deixar de existir para sempre. Minha vida é apenas uma transição momentânea entre um esquecimento e outro.

O universo também encara a morte. Os cientistas nos dizem que o universo está em expansão, e que tudo que há nele está ficando cada vez mais distante. Com isso ele fica cada vez mais frio, e sua energia vai se gastando. Um dia todas as estrelas perderão seu calor e toda matéria se tornará em estrelas mortas e buracos negros. Não haverá mais luz, não haverá mais calor, não haverá mais vida, apenas estrelas e galáxias mortas, sempre se expandindo em trevas sem fim e extremidades frias do espaço – um universo em ruínas. Todo o universo se encaminha de modo irreversível para o túmulo. Assim, não só a vida de cada pessoa está condenada; toda a raça humana está condenada. O universo está se precipitando em direção à extinção inevitável – a morte está encravada em toda a sua estrutura. Não há escapatória. Não há esperança.

O ABSURDO DA VIDA SEM DEUS E SEM IMORTALIDADE

Se não há Deus, o ser humano e o universo estão condenados. Como prisioneiros condenados à morte, esperamos nossa execução inevitável. Não há Deus, e não há imortalidade. E qual a conseqüência disso? Significa que a própria vida é um absurdo. Significa que a vida que temos não tem sentido fundamental, valor ou propósito. Vejamos esses três conceitos mais de perto.

Não há sentido fundamental sem imortalidade e sem Deus

Se cada pessoa deixa de existir quando morre, que sentido fundamental pode ser dado à sua vida? Realmente faz diferença se ela existiu? Pode ser dito que sua vida foi importante porque influenciou outros ou afetou o curso da história. Mas isso mostra apenas um significado relativo da sua vida, não um sentido fundamental. Sua vida pode ter importância relativa a certos acontecimentos, mas qual é o sentido fundamental desses acontecimentos? Se todos os acontecimentos não têm sentido, então que sentido fundamental pode haver em influenciá-los? No final das contas, não faz diferença.

Olhe para isso de outro ponto de vista: os cientistas dizem que o universo se originou de uma explosão que chamam de “Big Bang”, há mais ou menos 15 bilhões de anos. Imagine que o “Big Bang” nunca tenha ocorrido. Imagine que o universo nunca tenha existido. Que diferença fundamental isso faria? O universo está mesmo fadado a morrer. No fim, não faz diferença se ele realmente existiu ou não. Por isso ele não tem sentido fundamental.

O mesmo vale para a raça humana. A humanidade está condenada em um universo moribundo. Uma vez que um dia deixará de existir, não faz diferença fundamental se ela alguma vez existiu. A humanidade, assim, não tem mais importância do que um enxame de mosquitos ou uma vara de porcos, pois seu fim é idêntico. O mesmo processo cósmico cego que a vomitou no início um dia acabará por engoli-la.

O mesmo se aplica a cada pessoa. As contribuições dos cientistas para o avanço do conhecimento humano, as pesquisas dos médicos para aliviar dor e sofrimento, os esforços dos diplomatas para promover a paz no mundo, os sacrifícios de pessoas boas para melhorar a sorte da raça humana – tudo isso não dá em nada. No fim, não farão nenhuma diferença, nem um pouquinho. A vida de cada pessoa, portanto, não tem sentido fundamental. E se, no final das contas, nossa vida não tem sentido, as atividades com que a preenchemos também não têm sentido. As longas horas gastas em estudo na universidade, os empregos, os interesses, as amizades – tudo isso é, em última análise, totalmente sem sentido. É isto que apavora o homem moderno: já que ele acaba em nada, ele é nada.

Contudo, é importante perceber que o ser humano não precisa apenas de imortalidade para que sua vida faça sentido. A mera continuação da existência não dá sentido a essa existência. Se o ser humano e o universo pudessem existir para sempre, mas não houvesse Deus, sua existência ainda não teria sentido fundamental. Certa vez li uma história de ficção científica em que um astronauta foi abandonado em uma rocha deserta perdida no espaço sideral. Ele levava consigo dois frascos, um contendo veneno e outro, uma poção que o faria viver para sempre. Compreendendo seu predicamento, ele engoliu o veneno. Mas então, para seu horror, descobriu que abrira o frasco errado – bebera a poção da imortalidade. E isso significava que ele estava condenado a existir para sempre – numa vida sem sentido e sem fim. Muito bem; se Deus não existe, nossa vida é como a desse astronauta. Ela pode durar para sempre, e mesmo assim não ter sentido. Ainda poderíamos perguntar à vida: “E daí?” Portanto, o ser humano não precisa apenas de imortalidade para que sua vida tenha sentido fundamental; ele necessita de Deus e de imortalidade. E se Deus não existe, ele não tem nenhum dos dois.

O homem do século vinte veio a compreender isso. Leia Á espera de Godot, de Samuel Beckett. Durante toda essa peça, dois homens estão ocupados numa conversa trivial, enquanto esperam um terceiro que nunca aparece. Nossa vida é assim, Beckett está dizendo: simplesmente matamos o tempo esperando – o quê, não sabemos. Num trágico retrato do ser humano, Beckett escreveu outra peça em que a cortina se abre para mostrar o palco cheio de lixo. Por trinta longo segundos, a platéia olha atônita, em silêncio, para aquele lixo. Então a cortina se fecha. Isso é tudo.

Um dos romances mais devastadores que já li foi O lobo da estepe, de Hermann Hesse. No fim do romance, Harry Haller fica olhando para si mesmo em um espelho. No curso da sua vida ele experimentara tudo o que o mundo oferece. E agora está olhando para si mesmo, e resmunga: “Ah, o sabor amargo da vida!” Ele cospe em si mesmo no espelho e, depois o estilhaça com chutes. Sua vida foi fútil e sem sentido.

Os existencialistas franceses Jean-Paul Sartre e Albert Camus também compreenderam isso. Sartre retratou a vida em sua peça Sem saída como o inferno – a última linha da peça são as palavras resignadas: “Bem, continuemos com isso”. Por isso Sartre escreve em outro texto sobre a “náusea” da existência. Camus também considerava a vida absurda. No fim do seu curto romance O estranho, o herói de Camus descobre num lampejo de compreensão que o universo não tem sentido e que não existe um Deus que lhe dê sentido. O bioquímico francês Jacques Monod pareceu refletir os mesmos sentimentos quando escreveu em sua obra Acaso e necessidade: “O ser humano finalmente sabe que está sozinho na imensidão indiferente do universo”.

Portanto, se Deus não existe, a própria vida se torna sem sentido. O ser humano e o universo não têm sentido fundamental.

Não há valor fundamental sem imortalidade e sem Deus

Se a vida termina no túmulo, não faz diferença se nossa vida foi como a de Stalin ou a de um santo. Se nosso destino, no fim das contas, não tem relação com nossa conduta, cada um pode viver como quiser. Como Dostoyevsky disse: “Se não há imortalidade, todas as coisas são permitidas”. Com base nisso, um escritor como Ayn Rand está totalmente correto em louvar as virtudes do egoísmo. Viva totalmente para si; você não deve satisfações a ninguém! Na verdade, seria tolice viver de qualquer outra forma, porque a vida é curta demais para desperdiçá-la agindo de outra forma a não ser em interesse próprio. Sacrificar-se por outra pessoa seria burrice. Kai Nielsen, filósofo ateu que tenta defender a viabilidade da ética sem Deus, no fim admite:

Não fomos capazes de mostrar que a razão requer o ponto de vista moral, ou que todas as pessoas realmente racionais, não predispostas por mitos ou ideologias, precisam ser indivíduos egoístas ou amoralistas clássico. Não é a razão que decide aqui. O quadro que pintei para você não é bonito. A reflexão sobre ele me deprime [...] A pura razão prática, mesmo com um bom conhecimento dos fatos, não o levará à moralidade.[1]

O problema, porém, torna-se ainda pior. Porque, apesar da imortalidade, se não há Deus, não pode haver padrões objetivos do que é certo e errado. Tudo o que está diante de nós, nas palavras de Jean-Paul Sartre, é o fato nu e sem valor da existência. Os valores morais são simples expressões de gosto pessoal ou subprodutos da evolução e do condicionamento sócio-biológico.

Nas palavras de um filósofo humanista: “Os princípios morais que regem nossa conduta estão arraigados em hábitos e costumes, sentimentos e modas” [2] Num mundo sem Deus, quem dirá quais valores são corretos e quais são errados? Quem julgará que os valores de Adolf Hitler são inferiores aos de um santo? O conceito de moralidade perde todo o sentido num universo sem Deus. Um ético ateu contemporâneo disse: “Afirmar que algo é errado porque [...] é proibido por Deus é [...] perfeitamente compreensível para alguém que crê em um deus legislador. Mas dizer que algo é errado [...] apesar de não existir um deus que o proíba não é compreensível [...] O conceito de obrigação moral [é] incompreensível sem a idéia de Deus. As palavras permanecem mas seu sentido se foi.” [3] Em um mundo sem Deus, não pode haver certo e errado objetivos, somente nossos juízos subjetivos, cultural e pessoalmente relativos. Isso significa que é impossível condenar guerra, opressão ou crime como maus. Também não podemos louvar fraternidade, igualdade e amor como bons. Porque em um universo sem Deus, bem e mal não existem – existe apenas o fato nu e sem valor da existência, e não há ninguém para dizer que você está certo e eu errado.

Não há propósito fundamental sem imortalidade e sem Deus

Se a morte nos espera de braços abertos no fim do curso da nossa vida, qual é o objetivo da vida? Com que fim ela foi vivida? Tudo foi a troco de nada? Não há razão para a vida? E o que dizer do universo? Ele é completamente sem razão? Se seu destino é um túmulo frio nas extremidades do espaço sideral, a resposta tem de ser sim – ele não tem razão de ser. Não há alvo, não há propósito para o universo. O lixo de um universo morto simplesmente continuará a se expandir – para sempre.

E o ser humano? Será que existe algum propósito para a raça humana? Ou será que ela simplesmente desaparecerá algum dia perdida no esquecimento de um universo indiferente? O escritor inglês H. G. Wells anteviu essa perspectiva. Em seu romance A máquina do tempo, o viajante no tempo avança para o futuro, a fim de descobrir o destino do ser humano. Tudo o que ele encontra é terra morta, com a exceção de alguns liquens e musgos, orbitando em torno de um gigantesco sol vermelho. Os únicos sons são o sopro do vento e o marulhar das ondas do oceano. “Com exceção desses sons sem vida”, escreve Wells, “o mundo estava em silêncio. Silêncio? Seria difícil descrever como tudo estava quieto. Todos os sons das pessoas, o balido das ovelhas, o canto dos pássaros, o zumbir dos insetos, o movimento que forma o pano de fundo da nossa vida – tudo havia passado”[4] E assim o viajante no tempo de Wells voltou para casa. Mas para quê? – para um mero ponto anterior na corrida em direção ao esquecimento. Quando eu, ainda nâo cristão, li o livro de Wells, pensei: “Não! Não! Não pode terminar assim!” Mas se não há Deus, o fim será esse, gostemos ou não. Esta é a realidade em um universo sem Deus: não há esperança, não há propósito. Isso me recorda os versos assustadores de T S. Eliot:

E assim que o mundo termina
E assim que o mundo termina
E assim que o mundo termina
Não com uma explosão; com um gemido.”[5]

O que se aplica à raça humana como um todo vale para cada um de nós individualmente: estamos aqui sem propósito. Se não há Deus, nossa vida não é qualitativamente diferente da de um cão. Sei que isso é duro, mas é verdade. O antigo escritor de Eclesiastes o disse assim: “O que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão” (Ec 3.19-20). Nesse livro, que se parece mais com uma peça da moderna literatura existencialista do que com um livro da Bíblia, o escritor mostra a futilidade de prazer, riqueza, educação, fama política e honra em uma vida fadada a terminar na morte. Qual é seu veredicto? “Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” (Ec 1.2). Se a vida termina no túmulo, não temos um propósito fundamental para viver.

Mais que isso: mesmo se tudo não terminasse na morte, sem Deus a vida ainda seria sem propósito. O ser humano e o universo seriam simples acidentes do acaso, jogados na existência sem motivo. Sem Deus o universo é resultado de um acidente cósmico, uma explosão aleatória. Não há motivo pelo qual ele exista. Quanto ao ser humano, ele é um capricho da natureza – um produto às cegas de matéria mais tempo mais acaso. O ser humano não passa de uma massa gosmenta que evoluiu até a racionalidade. Não há mais propósito na vida para a raça humana do que para uma espécie de inseto; ambos são resultado da interação cega de acaso e necessidade. Um filósofo o disse assim: “A vida humana está posta sobre um pedestal subumano e tem de lutar sozìnha no centro de um universo silencioso e sem razão”[6]

O que vale para universo e a raça humana também se aplica a nós como indivíduos. Enquanto seres humanos individuais, somos o resultado de certas combinações de hereditariedade e ambiente. Somos vítimas de um tipo de roleta genética e ambiental. Os psicólogos que seguem Sigmund Freud nos dizem que nossas ações são resultados de várias tendências sexuais reprimidas. Os sociólogos que seguem B. E Skinner argumentam que todas as nossas escolhas são determinadas pelo condicionamento, de modo que a liberdade é uma ilusão. Biólogos como Francis Crick consideram o ser humano uma máquina eletroquímica que pode ser controlada alterando-se seu código genético. Se Deus não existe, você não passa de um aborto da natureza, jogado num universo sem propósito para levar uma vida sem propósito.

Portanto, se Deus não existe, isso significa que o ser humano e o universo existem sem nenhum propósito -já que o fim de tudo é a morte – e que vieram a existir sem nenhum propósito, já que são produtos cegos do acaso. Em resumo, a vida é totalmente sem razão.

Você consegue entender a gravidade das alternativas à nossa frente? Se Deus existe, há esperança para o ser humano. Mas se Deus não existe, tudo o que nos resta é o desespero. Você compreende por que a pergunta da existência de Deus é tão vital para o ser humano? Como um escritor expressou muito bem: “Se Deus está morto, o ser humano também está”. Infelizmente, a massa da humanidade não percebe esse fato. Ela continua a viver como se nada tivesse mudado. Recordo-me da história de Nietzsche sobre o louco que, nas primeiras horas da manhã, corre pelo mercado com um lampião na mão, exclamando: “Procuro Deus! Procuro Deus!” Como muitos à sua volta não crêem em Deus, ele provoca muitos risos. “Deus se perdeu?”, zombam dele. “Ou se escondeu? Ou foi viajar ou emigrou!” E riem alto. Então, escreve Nietzsche, o louco pára no meio deles e crava-lhes o olhar:

“Onde está Deus?”, ele grita. “Eu lhes direi. Nós o matamos - vocês e eu. Todos nós somos seus assassinos. E como fizemos isso? Como pudemos beber o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? O que fizemos quando desamarramos esta terra do seu sol? Para onde ela está se movendo agora? Para longe de todos os sóis? Não estamos caindo sem parar? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Restou alguma coisa em cima ou embaixo? Não estamos vagando como que por um nada infinito? Não estamos sentindo a respiração do espaço vazio? Não ficou mais frio? Não está chegando cada vez mais a noite? Não estamos tendo de acender lampiões de manhã? Não ouvimos apenas o barulho dos coveiros que estão sepultando a Deus? ([...]Deus está morto [...]. E nós o matamos. Como nós, os maiores de todos os assassinos, iremos consolar a nós mesmos?”[7]

A multidão ficou fitando o louco em silêncio e perplexidade. Por fim, ele coloca o lampião no chão e disse: “Cheguei muito cedo, esse acontecimento incrível ainda está a caminho – ainda não atingiu os ouvidos do ser humano”. O ser humano ainda não compreendera realmente as conseqüências do que fizera ao matar a Deus. Mas Nietzsche predisse que um dia as pessoas entenderiam as implicações do seu ateísmo; e essa percepção daria início a uma era de niilismo – a destruição de todo significado e valor da vida. O fim do cristianismo, escreveu Nietzsche, significa o advento do niilismo. Esse mais terrível de todos os hóspedes já está à porta. “Toda a nossa cultura européia está há algum tempo em movimento”, escreveu Nietzsche, “numa tensão torturante que está crescendo a cada década, como na iminência de uma catástrofe: sem descanso, com violência, precipitado, como um rio que quer chegar ao fim, que não reflete mais, que tem medo de refletir”[8].

A maioria das pessoas ainda não reflete sobre as conseqüências do ateísmo, e assim, como a multidão no mercado, continua seu caminho sem saber. Mas quando entendemos, como Nietzsche, o que o ateísmo implica, essa pergunta fará grande pressão sobre nós: como nós, os maiores assassinos, consolaremos a nós mesmos?

A IMPOSSIBILIDADE PRÁTICA DO ATEÍSMO

Quase a única solução que um ateu pode oferecer é que enfrentemos o absurdo da vida e vivamos com coragem. Bertrand Russell, por exemplo, escreveu que temos de construir nossa vida sobre “o firme fundamento do desespero incessante”[9]. Somente reconhecendo que o mundo é realmente um lugar terrível é que podemos lidar bem com essa vida. Camus disse que devemos reconhecer honestamente o absurdo da vida e depois viver com amor uns pelos outros.

O problema fundamental com essa solução, porém, é que é impossível viver de modo coerente e feliz com uma cosmovisão assim. Quem vive de modo coerente, não será feliz; quem vive de modo feliz, apenas o é porque não é coerente. Francis Schaeffer explicou bem esse ponto. Ele. diz que o homem moderno mora em um universo de dois andares. No andar de baixo está o mundo finito sem Deus; ali a vida é um absurdo, como vimos. No andar de cima estão sentido, valor e propósito. Muito bem, o homem moderno mora no andar de baixo porque acredita que Deus não existe. Só que não pode viver feliz num mundo absurdo; por isso, constantemente dá saltos de fé para o andar superior para afirmar sentido, valor e propósito, apesar de não ter direito a isso por não crer em Deus. O homem moderno é totalmente incoerente quando dá o seu salto, porque esses valores não existem sem Deus, e o ser humano no andar de baixo não tem Deus.

Olhemos mais uma vez, então, cada uma dessas três áreas em que vimos que a vida sem Deus é um absurdo, para mostrar como o ser humano não pode viver de modo coerente e feliz com seu ateísmo.

O sentido da vida

Primeiro, a área do sentido. Vimos que, sem Deus, a vida não _tem sentido. Todavia, os filósofos continuam vivendo como se a vida tivesse sentido. Por exemplo, Sartre argumentou, que é possível criar sentido para a vida escolhendo livremente certo curso de ação. O próprio Sartre escolheu o marxismo.

Bem, isso é de uma incoerência completa. Não há coerência em dizer que a vida é objetivamente um absurdo e depois afirmar que se pode criar sentido para a vida. Se a vida é realmente um absurdo, o ser humano está preso no andar de baixo. Tentar criar sentido na vida significa saltar para o andar superior. Mas Sartre não tem base para dar esse salto. Sem Deus, não pode haver sentido objetivo na vida. O programa de Sartre é na verdade um exercício de auto-engano. O universo na verdade não adquire sentido só porque eu lhe atribuo algum sentido. Isso é fácil de ver: imagine que eu dou um sentido ao universo e você lhe dá outro. Quem tem razão? A resposta, claro, é nenhum dos dois. O universo sem Deus permanece sem sentido em termos obietivos, não importa como nós o consideremos. Sartre na verdade está dizendo: “Vamos fazer de conta que o universo tem sentido”. E isso equivale a enganar a si mesmo.

A questão é esta: se Deus não existe, a vida, em termos objetivos, não tem sentido; acontece que o ser humano não pode viver de modo coerente e feliz sabendo que a vida não tem sentido; assim, com o propósito de ser feliz, ele finge que a vida tem sentido. Isso, claro, é uma incoerência a toda prova pois, sem Deus, o ser humano e o universo não têm nenhum sentido real.

O valor da vida

Agora volte-se para o problema do valor. É aqui que ocorrem as incoerências mais flagrantes. Em primeiro lugar, os humanistas ateus são totalmente incoerentes ao afirmar os valores tradicionais de amor e fraternidade. Camus foi criticado com razão por defender de modo incoerente o absurdo da vida ao lado da ética do amor e da fraternidade humana. Esses dois elementos são logicamente incompatíveis. Bertrand Russell também foi incoerente. Apesar de ateu, era um destacado crítico social e denunciava a guerra e as restrições à liberdade sexual. Russell admitiu que não podia viver como se os valores éticos fossem uma simples questão de gosto pessoal, e que por isso não considerava suas próprias posições passíveis de se crer. “Não sei a solução”, confessou[10]. A questão é que, se não há Deus, não podem existir certo e errado objetivos. Como disse Dostoyevsky: “Todas as coisas são permitidas”.

Dostoyevsky, porém, também mostrou que o ser humano não pode viver dessa maneira. Ele não pode viver como se não houvesse problema algum no fato de soldados massacrarem crianças inocentes. Ele não pode viver como se não houvesse problema algum nos regimes ditatoriais que adotam um programa sistemático de tortura física de prisioneiros políticos. Ele não pode viver como se estivesse tudo bem com ditadores como Pol Pot, que exterminam milhões dos seus próprios compatriotas. Todo o seu ser grita para dizer que esses atos são errados – realmente errados. Mas se não há Deus, ele não pode fazer isso. Então, ele dá um salto de fé e afirma esses valores mesmo assim. E ao fazê-lo, revela a inadequação de um mundo sem Deus.

O horror de um mundo sem valores ficou claro para mim, e com muito mais intensidade, há alguns anos quando assisti a um documentário da BBC na televisão chamado “A reunião”. Era sobre sobreviventes do Holocausto que se encontraram em Jerusalém, onde redescobriram amizades perdidas e compartilharam suas experiências. Bem, eu já havia ouvido histórias do Holocausto e até visitara Dachau e Buchenwald, e pensava que não me chocaria com mais histórias de horror. Mas descobri que estava enganado. Talvez eu estivesse mais sensível por causa do nascimento recente da nossa linda filha, transferindo-lhe as situações relatadas na televisão. Seja como for, uma prisioneira, enfermeira, contou como fora transformada em ginecologista em Auschwitz. Ela observou que as mulheres grávidas eram agrupadas por soldados sob a direção do Dr. Mengele e abrigadas nos mesmos barracões. Passado algum tempo, ela notou que não via mais nenhuma daquelas mulheres. Começou então a fazer perguntas: “Onde estão as mulheres grávidas que foram colocadas naqueles barracões?” “Você não sabe?”, foi a resposta. “O Dr. Mengele as usou para vivisseção“.

Outra mulher contou como Mengele enfaixara seus seios para que não pudesse amamentar seu bebê. O médico queria saber quanto tempo um bebê podia sobreviver sem alimento. Desesperada, essa pobre mulher tentou manter seu bebê vivo dando-lhe pedaços de pão molhados no café, mas sem resultado. A cada dia ele perdia peso, fato acompanhado com precisão pelo Dr. Mengele. Então uma enfermeira veio em segredo dizer a essa mulher: “Dei um jeito de você sair daqui, mas você não pode levar seu bebê. Eu trouxe uma injeção de morfina para você pôr fim à vida dele”. Diante dos protestos da mulher, a enfermeira foi insistente: “Veja, seu bebê vai morrer de qualquer jeito. Pelo menos salve a si mesma”. E assim aquela mãe tirou a vida do seu próprio filho. O Dr. Mengele ficou furioso quando soube do fato porque perdera sua cobaia, e procurou entre os cadáveres até achar o corpo do bebê para poder pesá-lo pela última vez. Fiquei arrasado com essas histórias. Um rabino que sobreviveu ao campo fez um bom resumo de tudo, quando disse que em Auschwitz era como se existisse um mundo em que os Dez Mandamentos haviam sido invertidos. A raça humana nunca havia testemunhado um inferno como aquele.

Mesmo assim, se Deus não existe, em certo sentido nosso mundo é um Auschwitz: não há certo nem errado absolutos; todas as coisas são permitidas. No entanto, nem o ateu nem o agnóstico podem viver de modo coerente com essa postura. O próprio Nietzsche, que proclamou a necessidade de viver “além do bem e do mal”, rompeu com seu mentor Richard Wagner exatamente por causa da questão do antisemitismo e do nacionalismo germânico estridente do compositor. De modo semelhante, Sartre, escrevendo logo depois da Segunda Guerra Mundial, condenou o anti-semitismo, declarando que uma doutrina que leva ao extermínio não é uma mera opinião ou questão de gosto pessoal, de igual valor do seu oposto[11]. Em seu importante estudo “O existencialismo é um humanismo”, Sartre luta em vão para disfarçar a contradição entre sua negação de valores divinamente pré-estabelecidos e seu desejo urgente de afirmar o valor dos seres humanos. A exemplo de Russell, ele não conseguia conviver com as implicações da sua própria negação dos absolutos éticos.

Um segundo problema é que, se Deus não existe e não há imortalidade, todos os atos maus das pessoas ficam sem punição e todos os sacrifícios das pessoas boas ficam sem recompensa. Quem pode viver com essa postura? Richard Wurmbrand, que foi torturado em prisões comunistas por sua fé, afirma:

A crueldade do ateísmo é difícil de aceitar para quem não crê na recompensa do bem ou na punição do mal. Não há razão para sermos humanos. Não há impedimento para a profundidade do mal no ser humano. Os torturadores comunistas diziam muitas vezes: “Deus não existe, não existe além, não existe punição para o mal. Podemos fazer o que quisermos”. Ouvi um torturador chegar a dizer: “Agradeço a Deus, em quem não creio, por poder viver até essa hora em que posso expressar todo o mal que há em meu coração”. Ele expressava isso com brutalidade e tortura inacreditáveis infligidas aos prisioneiros.[12]

O teólogo inglês Cardeal Newman disse certa vez que, se acreditasse que todos os males e injustiças da vida em toda a história não serão corrigidos por Deus na vida do além, “bem, acho que eu ficaria louco”. E com razão. O mesmo se aplica a atos de auto-sacrifício. Há alguns anos ocorreu um terrível desastre aéreo durante o inverno, em que um avião que saiu de Washington, nos Estados Unidos, bateu em uma ponte sobre o rio Potomac e arremessou os passageiros na água gelada. Quando chegaram os helicópteros de resgate, a equipe de salvamento percebeu que havia um homem que ficava jogando a escada de cordas para outros passageiros, em vez de se deixar puxar para a segurança do helicóptero. Seis vezes ele jogou a escada para outros. Na sétima vez que a escada desceu, ele não estava mais lá. Dera a sua vida espontaneamente, para que outros pudessem viver. Toda a nação voltou os olhos para esse homem em respeito e admiração pelo ato de bondade e altruísmo. Mesmo assim, se o ateu tem razão no que afirma, aquele homem não fez nada de nobre – ele fez a coisa mais estúpida possível. Ele devia ter se lançado em direção à escada e até empurrado os outros, se necessário, a fim de sobreviver. Mas morrer por gente que ele nem conhecia, desistir da breve existência que ainda lhe restava – para quê? Para um ateu, não pode haver razão que justifique tal ato. Mesmo assim, o ateu, como qualquer um de nós, instintivamente reage com louvor a esse ato desinteressado do homem. De fato, provavelmente nunca encontraremos um ateu que viva em coerência com seu sistema. Pois um universo sem responsabilidade moral e sem valores é incalculavelmente terrível.

O propósito da vida

Por último, vejamos o problema do propósito na vida. As únicas duas maneiras pelas quais a maioria das pessoas que negam o propósito da vida podem viver feliz é inventando um propósito, o que equivale ao auto-engano como vimos em Sartre, ou não levando sua posição às conclusões lógicas. Observe o problema da morte como exemplo. De acordo com Ernst Bloch, a única maneira pela qual o homem moderno pode viver em face da morte é valendo-se inconscientemente da crença na imortalidade que seus antepassados tinham, mesmo sem ter ele mesmo base para essa crença, já que não crê em Deus. Bloch constata que a crença de que a vida termina em nada dificilmente é, em suas palavras, “suficiente para manter a cabeça erguida e trabalhar como se não houvesse fim”. Ao se valer dos resquícios de uma crença na imortalidade, escreve Bloch, “o homem moderno não sente o abismo que o cerca por todos os lados e com certeza acabará por tragá-lo. Com esses resquícios, ele salva seu senso de identidade própria. Por meio deles surge a impressão de que o ser humano não está perecendo, mas apenas um dia o mundo terá o capricho de não mais se mostrar a ele”. Bloch conclui: “Essa coragem bastante superficial saca de um cartâo de crédito emprestado. Ela vive de esperanças anteriores e da sustentação que elas antigamente proporcionavam”[13]. O homem moderno não tem mais o direito a tal sustentação, já que rejeita a Deus. Mas, a fim de viver com propósito, dá um salto de fé para afirmar uma razão para a vida.

Encontramos freqüentemente a mesma incoerência entre aqueles que dizem que o ser humano e o universo vieram a existir sem qualquer razão ou propósito, apenas por acaso. Incapazes de viver em um universo impessoal em que tudo é produto do acaso cego, essas pessoas começam a atribuir personalidade e motivos aos próprios processos físicos. Essa é uma maneira bizarra de falar e representa um salto do andar de baixo para o de cima. Por exemplo, os brilhantes físicos russos Zeldovich e Novikov, ao contemplar as propriedades do universo, perguntam por que a “natureza” decidiu criar esse tipo de universo e não outro. “Natureza” obviamente se tornou um tipo de substituto de Deus, preenchendo o papel e a função de Deus. Francis Crick, no meio do seu livro The origin of the genetic code, começa a escrever “natureza” com N maiúsculo, e em outras passagens diz que a seleção natural é “inteligente” e que “pensa” no que fará. Fred Hoyle, astrônomo inglês, atribui ao próprio universo as qualidades de Deus. Para Carl Sagan, o “cosmos”, que ele sempre escreve com C maiúsculo, obviamente tem o papel de um substituto de Deus. Apesar de todos esses homens professarem não crer em Deus, eles contrabandeiam um substituto de Deus pela porta dos fundos, porque não suportam viver em um universo em que tudo é resultado do acaso de forças impessoais.

E é interessante ver muitos pensadores traírem suas posições quando são empurrados em direção às suas conclusões lógicas. Por exemplo, certas feministas levantaram uma tempestade de protestos contra a psicologia freudiana porque é machista e degradante para as mulheres. Então alguns psicólogos abaixaram a cabeça e revisaram suas teorias. Acontece que isso é totalmente incoerente. Se a psicologia freudiana é realmente verdadeira, não importa se ela degrada as mulheres. Você não pode mudar a verdade porque não gosta de suas conclusões. Contudo, as pessoas não conseguem viver coerentes e felizes em um mundo onde outras pessoas são desvalorizadas. Se Deus, porém, não existe, ninguém tem valor. Somente se Deus existe alguém pode com coerência apoiar os direitos das mulheres. Pois se Deus não existe, a seleção natural dita que quem é dominante e agressivo na espécie é o macho. As mulheres não poderiam ter mais direitos do que uma cabra ou uma galinha. Na natureza, tudo o que existe está certo. Mas quem consegue conviver com essa postura? Ao que parece, nem mesmo os psicólogos freudianos, que traem suas teorias quando levados às suas conclusões lógicas.

Observe, também, o behaviorismo sociológico de alguém como B. F. Skinner. Essa posição leva ao tipo de sociedade imaginada em 1984, de George Orwell, em que o governo controla e programa os pensamentos de todo mundo. Se é possível fazer o cão de Pavlov salivar quando soa uma campainha, pode-se fazer o mesmo com um ser humano. Se as teorias de Skinner estão certas, não pode haver objeção para tratar as pessoas como os ratos na caixa de Skinner, que correm pelos labirintos atraídos por comida e impelidos por choques elétricos. De acordo com Skinner, todas as nossas noções são predeterminadas. E se Deus não existe, não se podem levantar objeções morais contra esse tipo de programação, pois o ser humano não é qualitativamente diferente de um rato, já que ambos são apenas matéria mais tempo mais acaso. Mas repito: quem consegue conviver com uma postura tão desumanizadora?

Ou, por fim, pense no determinismo biológico de alguém como Francis Crick. Sua conclusão lógica é que o ser humano é igual a qualquer outro espécime de laboratório. O mundo ficou horrorizado quando soube que em campos como Dachau os nazistas tinham usado prisioneiros para experimentos médicos em seres humanos. E por que não? Se Deus não existe, não pode haver objeções ao uso de pessoas como cobaias humanas. Um memorial em Dachau traz a inscrição Nie wieder - “nunca mais” – mas esse tipo de coisa continua acontecendo. Há alguns anos foi revelado que, nos Estados Unidos, várias pessoas haviam recebido de pesquisadores médicos drogas esterilizadoras, sem o conhecimento delas. Não temos nós de protestar que isso está errado – que o ser humano é mais que uma máquina eletroquímica? O fim dessa posição é o controle populacional em que os fracos e indesejados são eliminados para abrir espaço para os fortes. No entanto, a única base para podermos protestar com coerência é a existência de Deus. Somente se Deus existe pode haver propósito na vida.

Portanto, o dilema do homem moderno é realmente terrível. Enquanto se negarem a existência de Deus e a objetividade de valor e propósito, esse dilema continuará insolúvel também para o homem “pósmoderno”. Na verdade, é exatamente a consciência de que o modernismo conduz inevitavelmente ao absurdo e ao desespero que constitui a angústia da pós-modernidade. Em alguns sentidos, a pósmodernidade nada mais é que a percepção da falência da modernidade. A cosmovisão ateísta é insuficiente para proporcionar uma vida feliz e coerente. O ser humano não pode viver de modo coerente e feliz como se a vida no fim das contas não tivesse sentido, valor ou propósito. Se tentarmos viver de modo coerente dentro da cosmovisão ateísta, acabaremos profundamente infelizes. Se, porém, conseguirmos viver felizes, será apenas contradizendo nossa cosmovisão.

Confrontado com esse dilema, o ser humano procura pateticamente alguma escapatória. Num discurso marcante à Academia Americana para Desenvolvimento da Ciência, em 1991, o Dr. L. D. Rue, confrontado com o predicamento do homem moderno, defendeu corajosamente que enganemos a nós mesmos com alguma “Mentira Nobre” para que pensemos que nós e o universo ainda temos valor[14]. Ao afirmar que “a lição dos últimos dois séculos é que o intelectualismo e o relativismo moral são o problema”, o Dr. Rue especula que a conseqüência dessa constatação é que a busca da integralidade (ou realização) pessoal e a busca da coerência social se tornam independentes uma da outra. Isso é assim porque, em vista do relativismo, a busca da realização pessoal fica radicalmente individualizada: cada pessoa escolhe seu próprio conjunto de valores e significado. “Não existe uma explicação definitiva e objetiva do mundo ou da pessoa. Não existe um vocabulário universal para integrar cosmologia e moralidade.” Se quisermos evitar a “alternativa do hospício”, em que a realização pessoal é buscada à custa da coerência social, e a “alternativa totalitária”, em que a coerência social é imposta à custa da integralidade pessoal, não temos outra escolha senão adotar alguma Mentira Nobre que nos inspire a viver além dos interesses egoístas, para chegar à coerência social. Mentira Nobre “é aquela que nos engana, nos ilude, nos impele além do interesse próprio, além do ego, além de família, nação [e] raça”. E uma mentira porque nos diz que o universo é dotado de valor (o que é uma grande ficção), porque alega ser uma verdade universal (o que não existe) e porque me diz que não devo viver para os meus interesses (o que é obviamente falso). “Sem essas mentiras, no entanto, não conseguimos viver.”

Esse é o terrível veredicto pronunciado sobre o homem moderno. A fim de sobreviver, ele tem de viver enganando a si mesmo. Contudo, mesmo a alternativa da Mentira Nobre, no fim das contas, não funciona, porque, se o que eu disse até aqui está correto, a crença na Mentira Nobre seria necessária não apenas para atingir coerência social e integralidade pessoal para as massas, mas também para alcançar a própria integralidade pessoal. Isso porque ninguém pode viver de modo feliz e coerente com uma cosmovisão ateísta. A fim de sermos felizes, temos de crer em sentido, valor e propósito objetivos. Entretanto, como se pode crer nessas Mentiras Nobres e ao mesmo tempo crer em ateísmo e relativismo? Quanto mais convencido se estiver da necessidade de uma Mentira Nobre, menos se será capaz de crer nela. Como um placebo, uma Mentira Nobre funciona apenas para aqueles que acreditam que ela é a verdade. Uma vez que desmascaremos a ficção, a Mentira perde seu poder sobre nós. Assim, por ironia, a Mentira Nobre não pode solucionar o predicamento humano em todos aqueles que compreenderam esse predicamento.

A alternativa da Mentira Nobre, portanto, na melhor das hipóteses conduz a uma sociedade em que um grupo elitista de illuminati engana as massas em proveito próprio, perpetuando a Mentira Nobre. Mas por que os que estamos iluminados deveríamos seguir as massas em sua ilusão? Por que haveríamos de sacrificar o interesse próprio por uma ficção? Se a grande lição dos últimos dois séculos é o relativismo moral e intelectual, por que fingir (se pudéssemos) que não sabemos essa verdade e, em lugar disso, viver uma mentira? Se alguém responder: “Por amor à coerência social”, podemos legitimamente perguntar por que deveria eu sacrificar meu interesse social por amor à coerência social? A única resposta que o relativista pode dar é que a coerência social é do meu interesse – mas o problema com essa resposta é que o interesse próprio e o interesse do rebanho nem sempre coincidem. Além disso, se (por interesse próprio) eu me importo com a coerência social, a alternativa totalitária sempre está aberta para mim: esquecer a Mentira Nobre e manter a coerência social (assim como a minha realização pessoal) à custa da integralidade pessoal das massas. Gerações de líderes soviéticos que enalteciam virtudes proletárias enquanto circulavam em limusines e jantavam caviar em suas dachas ou casas de campo acharam essa alternativa bastante interessante. Rue sem dúvida consideraria essa alternativa repugnante. Mas nisso é que está o problema. O dilema de Rue é que ele obviamente valoriza tanto a coerência social quanto a integralidade pessoal por amor a ambas; em outras palavras, elas são valores objetivos, o que, de acordo com a sua filosofia, não existe. Ele já saltou para o andar superior. A alternativa da Mentira Nobre, portanto, afirma o que nega e refuta a si mesma.

O SUCESSO DO CRISTIANISMO BÍBLICO

Entretanto, se o ateísmo fracassa nesse aspecto, o que dizer do cristianismo bíblico? De acordo com a cosmovisão cristã, Deus existe, e por isso a vida do ser humano não termina no túmulo. No corpo ressurreto, o ser humano pode gozar da vida eterna em comunhão com Deus. O cristianismo bíblico, portanto, proporciona ao ser humano as duas condições necessárias para uma vida com sentido, valor e propósito: Deus e a imortalidade. Por causa disso, podemos viver de modo coerente e feliz. Assim, o cristianismo bíblico é bem sucedido exatamente onde o ateísmo fracassa.

CONCLUSÃO

Agora quero deixar claro que ainda não demonstrei que o cristianismo bíblico é verdadeiro. O que fiz foi enunciar claramente as alternativas. Se Deus não existe, a vida é inútil. Se o Deus da Bíblia existe, a vida tem sentido. Somente a segunda dessas duas alternativas nos possibilita viver felizes e coerentes. Por isso, parece-me que, mesmo que as evidências para essas duas alternativas fossem exatamente iguais, uma pessoa racional haveria de escolher o cristianismo bíblico. Parece-me positivamente irracional preferir morte, ausência de sentido e destruição em lugar de vida, sentido e felicidade. Como disse Pascal, não temos nada a perder e ganhamos o infinito.

Extraído do livro “A Veracidade da Fé Cristã”, William Lane Craig, Editora Vida Nova.

NOTAS

  1. Kai NIELSEN, “Why should I be moral?”, em American Philosophical Quarterly 21 (1984): 90.
  2. Paul KURTZ, Forbidden fruit. Buffalo/NY, Prometheus, 1988, p. 73.
  3. Richard TAYLOR, Ethics, faith, and reason. Englewood Cliffs/NJ, Prentice Hall, 1985, p. 90. 84.
  4. H. G. WELLS, The time machine. Nova York, Berkeley, 1957, cap. 11.
  5. T S. ELIOT, “The hollow men”, em Collected poems 1909-1962. Nova York, Harcourt, Brace, Jovanovitch, Inc., 1934. Citado com permissão do editor.
  6. W. E. HOCKING, Types ofphilosophy. Nova York, Scribner’s, 1959, p. 27.
  7. Friedrich NIETZSCHE, “The gay science”, em The portable Nietzsche, ed. e trad. por W. Kaufmann. Nova York, Viking, 1954, p. 95.
  8. Friedrich NIETZCHE, “The will to power”, trad. por W. Kaufmann, em Existentialism from Dostoyevsky to Sartre, 2″ ed. com introdução de W. Kaufmann. Nova York, New American Library, Meridian, 1975, p. 130-131.
  9. Bertrand RUSSELL, “A free man’s worship”, em Why I am not a Christian, ed. por P Edwards. Nova York, Simon & Schuster, 1957, p. 107.
  10. Bertrand RUSSELL, carta ao Observer, 6 de outubro de 1957.
  11. Jean Paul SARTRE, “Portrait of the antisemite”, trad. por M. Guiggenheim, em Existentialism, p. 330.
  12. Richard WURMBRAND, Tortured for Christ. Londres, Hodder & Stoughton, 1967, p. 34. 13. Ernst BLOCH, Das Prinzip Hoffnung, 2ª ed., 2 vols. Frankfurt, Suhrkamp, 1959, 2:360361.
  13. Loyal D. RUE, “The saving grace of noble lies”, palestra para a American Academy for the Advancement of Science, em fevereiro de 1991.

Sobre o autor: Willian Lane Craig é doutor em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e em teologia da Universidade de Munique, e atualmente é professor-pesquisador de filosofia na Escola de Teologia Talbot. É membro de nove sociedades de profissionais, entre as quais a Academia Americana de Religião, a Sociedade de Literatura Bíblica e a Associação Filosófica Americana, e escreve artigos para New Testament Studies, Journal for the Study of the New Testament, Journal of the American Scientific Affiliation, Gospel Perspectives, Philosophy e outras publicações acadêmicas. Escreveu vários livros, entre eles A Veracidade da Fé Cristã e Filosofia e Cosmovisão Cristã (em co-autoria), ambos publicados pela Editora Vida Nova.