Senhores Atenienses, Ouçam!

Senhores Atenienses, Ouçam!
Senhores Atenienses, Ouçam!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

SAGRADO E PROFANO: UM BREVE COMENTÁRIO


O pensamento cristão no decorrer dos séculos, por influência da filosofia grega, passou a defender uma separação entre o sagrado e o profano. Os gregos tinham uma visão que as coisas materiais eram ruins e profanas, enquanto a salvação dependia de libertar o espírito do material. A elite grega era tão influenciada por esse pensamento, que o trabalho manual(material) ficava relegado aos escravos, uma subclasse, enquanto a elite se dedicava a filosofar.

Platão defendia a idéia que o mundo material é um simulacro, ou seja, uma cópia imperfeita do “mundo das idéias”. Para alcançar o “mundo da idéias”, era preciso se libertar por meio da alma, subindo e saindo do cativeiro material. Como lembra Nancy Pearcey: “O que Platão quer dizer(...) é que o mundo material é o reino do erro e ilusão. O caminho ao verdadeiro conhecimento é livra-se de todos os sentidos físicos”¹.

Agostinho foi um dos pais da igreja que assimilou o pensamento platônico. Apesar de defender que a criação material era boa, conforme Gênesis, Agostinho defendia que a criação material de Deus, era um simulacro. Há vários exemplos da dicotomia material/espiritual no pensamento agostiniano. Ele foi um dos defensores da virgindade perpétua de Maria, por associar o sexo(algo material, feio com e pelo corpo) ao pecado. Ele, também, via o celibato como superior ao casamento. A dicotomia sagrador/profano de Platão influenciou outros pais da igreja.

A divisão sagrado/secular criou um conceito distorcido da palavra corpo. No conceito Paulino, a natureza pecaminosa é descrita de várias formas, como natureza terrena, natureza adâmica, velho homem e carne. Para Paulo, a carne a ser mortificada era a natureza pecaminosa e não o corpo humano. Com o dualismo sagrado/secular, o corpo humano passou a ser visto como algo mau, sendo assim, aquilo que fosse ligado ao corpo era pecaminoso. Surge nessa época, aqueles que defendem um corpo empacotado (totalmente coberto de roupas), a abstinência de sexo(dentro do casamento), a mundanização daquilo que fosse material.

A matéria é má? Na visão bíblica a resposta é não. O primeiro capítulo de Gênesis descreve a criação material efetuada por Deus. Moisés, escritor do Pentateuco, escreve sempre a frase: “E viu Deus que era bom”, isso após uma criação material. A matéria faz parte da criação de Deus, portanto ela não é má, mas sim, sofre as consequências do pecado.

Tomás de Aquino foi outro teólogo cristão que assimilou o pensamento grego. Aquino, combatendo a teoria da verdade dupla (que dizia que duas interpretações são verdadeiras, mesmo que esses conceitos sejam excludentes), acabou assimilando outra forma de dualismo. Tomás de Aquino produziu uma estrutura dualística, dividindo o conceito de natureza e graça. Ele dizia que o homem está em um estado de natureza pura que precisa de uma adição de graça, “quer dizer, além de nossas faculdades naturais, Deus dotara os seres humanos de um dom ou faculdade sobrenatural que os capacita a ter um relacionamento com Deus”². Esse pensamento trouxe a visão que as coisas humanas são independentes das divinas, apesar de andarem juntas. O dualismo de Aquino, produziu o pensamento de viver como homem natural e homem espiritual, coexistindo em um só ser. Um homem vive com o sagrado e com o profano ao mesmo tempo.

Partindo dessa premissa de Aquino, o pensamento vigente na cristandade é que se ia à missa para um ato sagrado, enquanto trabalhar era o lado profano. Mas essas realidades eram ligadas a um só homem. Os únicos que poderiam “viver exclusivamente do sagrado”, eram os monges, pois não se envolviam com “assuntos mundanos”.

A dicotomia sagrado/secular influência o pensamento cristão na atualidade? Sim. Ainda hoje há uma dificuldade de uma visão unificada da fé cristã para todas as áreas da vida (cultura, arte, lazer, trabalho, educação, política, esporte etc.). O dualismo permeia não só o pensamento católico, mas muitos protestantes.

Os reformadores formam os primeiros a quebrarem essa visão dualística da vida. O conceito de sacerdócio versus leigos (os sagrados versus os profanos) deu lugar a doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes, conforme a revelação bíblica (1 Pe 2.9). Os reformadores passaram a defender que a criação é boa, conforme a Bíblia (Gn 1.12, 21, 25), sendo assim as várias formas de manifestações culturais eram divinas, dizia Calvino: “todas as artes procedem de Deus e devem ser consideradas criações divinas”. Na visão reformada, o corpo passou a ser visto com templo do Espírito Santo (1 Co 3.16) e não casa e instrumentos dos demônios. Com a reforma, passou a se ensinar que o trabalho episcopal não é mais digno do que o trabalho manual ou cultural, pois tudo deve ser feito para a glória de Deus (1 Co 10. 31).

A Bíblia ensina tanto no antigo testamento, como no novo testamento, uma visão unificada da vida, vivendo tudo para a “glória de Deus”. No livro de provérbios, as várias instruções em relação à comunhão com Deus, estão do lado de instruções relacionadas à família, agricultura, finanças, casamento etc. É bem relevante a observação do teólogo católico Jacques Trublet, “a nossa dicotomia sagrado/profano se aplica com dificuldades à mentalidade hebraica, não que ela misture todos os níveis do real, mas porque na abordagem bíblica tudo funciona em interação”³. No novo testamento não é diferente, o capítulo quatro de 1 Tessalonicenses está dividido em três parágrafos (1-8, 9-12 e 13-18), o primeiro parágrafo está exortando à santidade, o segundo fala do amor e do trabalho, enquanto o terceiro parágrafo expõe a doutrina da ressurreição do santos e o arrebatamento; veja que o trabalho( vv. 11-12) está inserido no meio de “assuntos espirituais”.

Apesar do trabalho de esclarecimento dos reformadores em relação à dicotomia sagrado/secular, há ainda hoje no pensamento evangélico, sobras dessa visão equivocada de mundo. Por meio desse escrito, serão apresentadas algumas distorções que contrariam a Palavra de Deus:

a) A dicotomia sagrado/profano supervaloriza a santificação do corpo em detrimento da santificação interior. O corpo é visto como algo ruim, mau e perverso, sendo assim precisa ser mortificado por um ascetismo rigoroso.

Identificar o pecado como parte do corpo é um erro. A santidade não consiste, somente, em coisas exteriores. A Bíblia ensina que a santificação parte de dentro para fora e não o contrário, pois como escreveu Paulo aos Tessalonicenses: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”(5.23).

Um pensamento legalista recorrente aos usos e costumes é pensar que isso seja a essência da santidade, quanto os usos e costumes são conseqüências da santidade e nunca a causa. Esses usos e costumes devem basear-se no princípio da moralidade, pudor e modéstia e não recorrer a eles como garantia da salvação, isso é legalismo farisaico. 

Não é bíblico ensinar que qualquer forma de lazer é pecaminosa ou que o crente para ser santo precisa viver longe das coisas materiais. Jesus foi a uma festa de casamento, mas sabia separar o que era legítimo e impróprio, tinha Ele discernimento.

b) A dicotomia sagrado/secular valoriza uma adoração estética, voltada em manifestações vocais, corporais e rítmicas; ligada a um espaço físico.

Hoje muito se fala em louvor e adoração, porém ligada a uma estética, uma inovadora fórmula. Biblicamente falando, a adoração não está presa à música ou outras manifestações vocais e rítmicas. Adoração é um estilo de vida, é mais do que música, culto e instrumentos musicais, são uma forma de viver, em todas as áreas da vida. Enquanto se adora com instrumentos, se deixa de louvar com testemunho público no pagamento de imposto. Essa dicotomia leva a drásticas conseqüências na vida cristã.

c) A dicotomia sagrado/secular separa drasticamente a constituição imaterial do homem, ensinando uma tricotomia dividida e não um ser holístico.

A antropologia neo-pentecostal faz uma separação acentuada entre espírito e alma/corpo. Para alguns “pseudo-mestres” da confissão positiva, o homem é um espírito que tem uma alma e habita em um corpo. A tricotomia desses “pseudo-mestres” é distorcida do ensinamento bíblico, pois nessa visão, o homem não é um ser unificado em sua constituição material e imaterial e sim divido.

Os hereges veem possibilidade de um demônio possuir a o corpo de um cristão. Nessa concepção, o corpo é inferior ao espírito, semelhante o pensamento platônico. Muitos dos conceitos expostos são semelhantes aos apresentados pelos gnósticos, seita muito combatida pelos apóstolos Paulo e João e os pais da igreja. O gnosticismo se relaciona com o neoplatonismo, e têm várias características em comum, entre elas essa visão tricotômica distorcida. O dr. Paulo Romeiro observa:

O tricotomismo extremado da antropologia da Confissão Positiva, que identifica o “verdadeiro eu interior” do homem como fundamentalmente divino, residindo exclusivamente em seu espírito, num contraste radical em relação ao seu corpo e alma transmutados por poderes demoníacos, é muito mais característica da mitologia gnóstica do que o ponto de vista judaico-cristão sobre o homem. 7 (ROMEIRO,  1999, p. 130).

Esses são alguns efeitos do conceito dicotômico no pensamento cristão. É bom lembrar que essa divisão entre o sagrado/profano contraria a visão bíblica de que tudo deve ser feito para Deus, “portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus”(1 Co 10.31) e “se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá, para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence à glória e o poder para todo o sempre. Amém”(1 Pe 4.11).


Referências bibliográficas:

[1]-PERCEY, Nancy. Verdade Absoluta. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 85-90.

[2]-MIES, Françoise(org). Bíblia e ciências. São Paulo: Edições Loyola, 2007, p.37.

[3]-GONÇALVES, José. Por que caem os valentes? 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p.83.

[4]-ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em crise. 4 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p.130.



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cosmovisão Bíblica Reformada: Criação, Queda e Redenção

RESENHA
Jeferson Roberto Lustosa

WOLTERS, Albert. M. A Criação Restaurada: Base Bíblica para uma Cosmovisão Reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 127 p. Tradução Denise Meister, do titulo original Creation regained.

            O pressuposto central da Escritura Sagrada no que concerne à existência da ordem criada é que Deus criou todas as coisas e, que esta premissa pode se constatada na estrutura da natureza nos aspectos gerais e particulares da revelação. Deus ao criar céus e terra, dispensou sua graça em toda a criação, como em todas as manifestações que o homem iria produzir em múltiplas áreas da existência humana, ou seja, a Escritura abrange as questões ordinárias da vida e, não somente a privatização da teologia como moralidade pessoal e sagrada, separando-a de um âmbito muito maior das questões humanas classificado como profano ou secular.
            Albert M. Wolters é professor associado de Religião e Teologia e, línguas clássicas no Redeemer College e autor de A Criação Restaurada. Wolters em sua obra literária busca apresentar a essência da cosmovisão bíblica e o quanto ela é significante para nossa vida global, Albert M. Wolters escreveu esse breve e objetivo exame da cosmovisão reformada.
            A cosmovisão reformada apresentada nesta obra do autor vem desconstruir o pensamento tomista de natureza e graça, que dicotomiza a vida cristã, deixando-a fragmentada em seus raios de ação.
Wolters inicia definindo a natureza e o escopo da cosmovisão, distinguindo-a da filosofia como tal e apontando a grande variedade de cosmovisões propostas dentro da comunidade cristã através da história. O autor coloca que uma cosmovisão é um guia para a vida humana e, mesmo quando ela existe de forma inarticulada e inconsciente não deixa de trabalhar como uma bússola.
A cosmovisão que deve ser vivenciada é aquela que nasce da Escritura, pois a teologia cristã olha para a Bíblia à luz das categorias básicas da criação, que Wolters vai desenvolver ao longo de sua obra.   
Então ele segue esboçando uma análise reformada de três pontos decisivos na história humana: a Criação, a Queda e a Redenção; concluindo que o mal não é condição necessária para o mundo criado e que, portanto, o mundo pode ser restaurado ao estado de perfeição. É responsabilidade cristã, argumenta Wolters, lutar por esse realinhamento com as ordenanças de Deus.
Em seu capítulo da criação ele aborda como o mundo foi criado originalmente e, quais eram os propósitos originais. A palavra de Deus na criação tem extensão nas estruturas da sociedade no mundo das artes, nos negócios, pois Deus criou as coisas para serem vividas e recebidas com ações de graça. Por isso, a revelação da criação divina comunica Sua existência e Seu domínio em todas as esferas da vida.
A idealização divina ao criar não se limitou a esfera espiritual do homem, mas no desenvolvimento holístico do homem, onde a terra criada será social e cultural, promovendo a civilização, pois leis criacionais foram validadas para o mundo da flora e da fauna, como leis validadas para a sociedade e a cultura que homem iria formar.
Na terceira parte o autor expõe a queda como outro ponto decisivo na história da revelação. Ele nos informa que a extensão da desobediência do homem atingiu o mundo não-humano também. Todas as estruturas da sociedade foram atingidas e se rebelaram contra o Criador. Com a queda a criação é mal usada e explorada para fins pecaminosos. Mesmo com a realidade do pecado, a criação não é anulada, pois sua estrutura é ancorada na lei criacional, mas a direção da criação é antagônica a pessoa de Cristo. Enfatiza que a graça comum de Deus esta em todas as áreas da criação e, dividir a criação em compartimentos de Sagrado e Profano é ter uma posição gnóstica da realidade.   
Em seu quarto capítulo Wolters fecha esta tríade do processo revelacional, discorrendo sobre a redenção, fazendo duas afirmações: a redenção significando restauração, ou seja, o retorno à bondade de uma criação original; a restauração afeta toda a vida criacional e, não apenas uma área da vida.
Neste estágio chamado redenção, não é uma questão de acrescentar uma dimensão espiritual à vida humana, mas é uma questão de dar nova vida e vitalidade àquilo que existe, pois toda a criação esta incluída no escopo da redenção em Cristo Jesus.
A renovação que é direcionada para Cristo Jesus abrange renovações sociais e pessoais, sem dualidades fragmentadoras do ser humano. Todas as coisas estão debaixo do domínio da graça de Deus e, o sistema corruptor perpetrado pelo diabo não pode criar polaridade entre o público e o privado.
A leitura da obra de Wolters é obrigatória para quem quer ter uma visão ampla no processo da revelação progressiva de Deus e, a história da redenção. O livro é relevante e pertinente, para a construção de uma cosmovisão bíblica de integralidade da criação, onde a criação foi criada originalmente, tendo sido distorcido pela queda, criação esta que não pode ser nem divinizada ou demonizada e, a providência restauradora de Deus com o Senhorio de Cristo. O autor é conciso e objetivo em sua proposta, em afirmar que a cosmovisão reformada é a única capaz de levar o mundo aos padrões prescritos nas Escrituras Sagradas.                                   



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A IGREJA ANTES DA REFORMA E A REFORMA



Começamos analisando a situação da Igreja Católica Apostólica Romana no final da Idade Media. Esse período, chamado “Baixa Idade Media”, Séculos 14 e 15, foi marcado pelo desanimo intelectual, imoralidade e corrupção da Igreja Romana. Se não fosse por estes dois séculos, hoje a Idade Media não seria lembrada de modo tão negativo. Antes destes séculos, houve muita produção escruta, com o pensamento de Agostinho e Tomas de Aquino; o Cristianismo espalhou-se por todo o mundo e surgiram as Universidades. Mas estes dois séculos que vieram antes da Reforma protestante de Martinho Lutero e João Calvino foram marcados pelo erro. Neste período o povo vivia com medo da Igreja, com fome e explorados economicamente pelos impostos papais. Alem disso, o povo não conhecia a Deus, pois não tinha qualquer acesso a sua Palavra. A Bíblia era um livro fechado e os sacerdotes se julgavam donos da revelação de Deus. Na idade Media o objetivo da Igreja era estabelecer um império de proporções mundiais, tendo a tradição oral e a palavra do papa como únicas autoridades sobre as áreas da vida humana. Um só idioma deveria ser falado, de forma que a liturgia do culto fosse idêntica em todas as igrejas. O historiador David Schaff diz que, nesta época, exaltava-se o sacerdócio e desprezavam-se os direitos dos homens comuns. Enquanto o papa possuía poderes de Imperador, seus sacerdotes e outros clérigos recebiam o status de reis e nobres. Qualquer reação que ameaçasse diminuir a autoridade da Igreja era duramente combatida com excomunhão e censuras [1]. Vejamos quais os principais elementos de total desvio da Palavra de Deus neste período.

1 - A Falsa Autoridade da Igreja

A supremacia papal dizia que o pontífice romano, o papa, era a representação de Deus na terra ou o vigário de Cristo (aquele que assume o lugar de Cristo). Sendo assim, as decisões papais feitas através de decretos ou bulas tinham autoridade maior do que a Escritura. Salvação naquela época era o mesmo que obediência ao papa. Sendo ele o soberano representante de Deus, não só a Igreja estava sob seu comando, mas também toda a lei civil. O papa Gregório VII defendeu a idéia de que o papa “e o único que deveria ter os pés beijados pelos príncipes”, depor imperadores e absolver ou não os súditos dos impérios de suas obrigações feudais [2]. O chefe da Igreja comandava também a vida comum e a propriedade dos cidadãos de todo o império [3]. A bula papal, anunciada pelo para Bonifacio VII em 1302, chamada de “Unam Sanctam” dizia que, assim “como houve um única arca, guiada por apenas um timoneiro, assim também havia uma única santa, católica e apostólica igreja, presidida por um supremo poder espiritual, o papa, que podia ser julgado apenas por Deus, não pelos homens. Desta forma ele concluiu: “Declararmos, estabelecemos, definimos e pronunciamos que, para a salvação, e necessário que toda criatura humana esteja sujeita ao Pontífice Romano [4]”. O sistema sacramental era outra grande estratégia da Igreja daquele tempo. Através desse sistema, os sacerdotes recebiam poderes incríveis como, por exemplo, perdoar os pecados do povo e também de conceder ou retirar a vida eterna. Dessa forma, a Igreja Católica Romana caiu em grande erro. Quando alguém se afasta da Bíblia, pensa que e Deus. Autoridade da Igreja e Jesus Cristo e não ha quem possa substituí-lo. Ele, e só ele, e o cabeça da igreja (Ef 1.22; Ef 5.23).

2 - O Falso Poder da Igreja

O papa Inocêncio III organizou a forca policial da Igreja. Esta foi a mais terrível estratégia da Igreja. Qualquer divergência contra ela era tratada como se fosse crime, cuja punição não estava reservada apenas neste mundo, com prisões, tortura e morte, mas também no mundo vindouro, onde o insubmisso queimaria no inferno. Esta policia chamava-se Inquisição. O papa poderia também fazer uso do interdito, com uma espécie de intervenção da igreja nos reinados do Império, quando o chefe da Igreja assumia o lugar do rei, como aconteceu com o Rei John da Inglaterra em 1213. Foram muitos os abusos e perseguições nesta época. Seres humanos sem direitos, sem liberdade e sendo terrivelmente explorados e censurados quando a sua liberdade de consciência. A Igreja se afastava da às doutrina e colocava em seu lugar um falso poder, uma autoridade mágica passa longe dos princípios eternos das Sagradas Escrituras. Este poder era totalmente falso porque, nas Escrituras, o poder da igreja vem de Cristo e subordinado a sua autoridade (Mt 28.18). Este poder, de modo algum, pode ser exercido com tirania, mas sim de acordo com a Palavra de Deus e sob a direção do Espírito Santo.

3 – A Falsa Santidade da Igreja

Nas ultimas décadas antes da reforma de Martinho Lutero e do Renascimento houve uma aberta demonstração da imoralidade entre os lideres da Igreja. Aqueles que se diziam ocupar o lugar de Deus na terra mergulharam de uma vez por todas na corrupção e na prostituição. Houve quem comparasse os papas desta época aos terríveis imperadores romanos que viveram próximos ao inicio da era crista e foram reconhecidos pela sensualidade e imoralidade. Corrompido dessa forma, o poder foi usado para favorecer os oficiais da Igreja e seus parentes. Papas nomeavam sobrinhos e familiares próximos, alguns deles na idade de adolescência, para assumirem bispados e arcebispados por todo o império. Ser líder da Igreja era um grande negocio. Schaff fala um pouco mais sobre a moralidade do clero naquele tempo: “Os cardeais que residiam em Roma não procuravam resguardar as amantes das vistas do publico. A paixão do jogo os envolvia na perda e no ganho de somas enormes, em uma só noitada. Os papas assistiam a sujas comedias, representadas no Vaticano. Seus filhos se casavam nas próprias câmaras do Vaticano e os cardeais se misturavam às senhoras que acorriam como convidadas, as brilhantes diversões que os papas arranjavam” [5].

4 – Uma Igreja Enfraquecida

Todos esses atos de dominação, corrupção e imoralidade acabaram enfraquecendo a igreja. O papa acabou perdendo o respeito e o prestigio das ordens leigas da igreja que estavam submetidas a ele. Em 1309 o centro ou sede da Igreja deixou Roma para se estabelecer em Avignon na Franca. Durante 68 anos a Cúpula da Igreja foi francesa. Depois, com Gregório XI, a Igreja voltou a Roma. Mas alguns cardeais franceses não se conformaram com a sede do papado em Roma e elegeram um papa para si, que governou a Igreja novamente de Avignon. Este foi um período da historia que contou com a existência de dois papas. Um em Roma, Clemente VII e outro em Avignon, Urbano VI, na Franca. Ambos se diziam sucessores do apostolo Pedro. De acordo com o historiador E.E.Cairns, o norte da Itália, grande parte da Germânia (Alemanha), a Escandinávia e a Inglaterra seguiram o papa romano. Franca, Espanha, Escócia e sul da Itália seguiram o para Frances. Esta divisão continuou ate o século seguinte [6]. Esse poder dividido contribuiu para o desgaste daquela autoridade pretendida pela Igreja Romana. Com o declínio da autoridade, a Influencia da Igreja no mundo começa a diminuir. Começam a surgir as cidades estados que se opõem contra a pretensa soberania mundial do papa. As nações começaram a se seara do Santo império Romano e passaram a ser comandadas por um rei, que com seu exercito, protegia seus súditos contra a exploração da Igreja. A Inglaterra e a Boemia foram às primeiras regiões da Europa a se manifestarem contra o domínio papal. Surgiram a partir de então movimentos internos que clamavam por reforma. Dentre esse destacamos os personagens de John Wycliff, na Inglaterra e Jonh Huss na Boemia. Esses acontecimentos sucessivos demonstram a presença de Deus na historia, abrindo espaço para Reforma de Martinho Lutero, João Calvino e Ulrich Zwinglio. O caminho para renascimento das artes, da ciência e da religião começa a ser trilhado.

Conclusão:

Os dois últimos séculos antes da Reforma formaram um verdadeiro período de trevas. Deus, então, preparou homens e mulheres para uma grande transformação de proporções mundiais, cujos efeitos chegam até nós hoje. Tanta imoralidade e perversão acabaram por propiciar a entrada deste novo movimento. O mundo necessitava de Deus, da sua Palavra e de uma transformação que abrangesse não só a sua vida espiritual, mas também a restauração da dignidade humana. Tudo isso veio com a Reforma do século 16. Hoje o homem continua necessitando de Deus. E o momento de avaliarmos a missão da Igreja de Cristo e começarmos a produzir frutos que promovam a gloria de Deus e resgatem a dignidade humana que esta mergulhada no pecado, na corrupção e na violência do mundo atual.

Nota

[1] - D.S.SCHAFF Nossa Crença e a de nossos Pais São Paulo: Imprensa Metodista, 1964. P.48.
[2] – Timothy GEORGE Teologia dos Reformadores São Paulo: Vida Nova, 1994. P.35
[3] – Nossa Crença e a de Nossos Pais, p. 49.
[4] – Teologia dos Reformadores, p. 35.
[5] – Nossa Crença e a de Nossos Pais, pp. 58-59.
[6] – E.E.CAIRNS  O Cristianismo Através dos Séculos São Paulo: Vida Nova, 1992. P.201.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

CRISE DE LEGITIMIDADE DA AUTORIDADE PASTORAL

A filosofia das luzes preconizou a ideia de que só há legitimidade na autoridade da razão considerada apta para legislar para si, sem a tutela de qualquer heteronomia. Para Max Weber, a legitimidade do poder legal funda-se na crença da legalidade das normas de um regime, estabelecida propositalmente e de modo racional. De forma diferente, a autoridade tradicional busca fundamentar sua legitimidade no respeito às instituições consagradas pela tradição e à pessoa que detém o poder, cujo direito de comando é conferido pela tradição.
O século 18 legou à sua posteridade o preconceito, no sentido negativo, em relação à tradição, compreendendo que esta sempre esteve atrelada ao complexo da religião. Como os postulados desta última foram enfraquecidos pelo uso instrumental da razão iluminista (quando esta critica o caráter indemonstrável de realidades prescritas nas crenças teológicas), a autoridade da tradição religiosa foi vilipendiada pela afirmação preconizada no aforismo kantiano: “O Iluminismo é a saída do homem de sua minoridade”.
A autonomização do eu, reivindicada na sugestiva filosofia da existência do niilismo nietzschiano, reforçou a tese iluminista da decadência da religião no Ocidente pós-cristão. E com seu declínio, houve desdobramentos axiológicos que acabaram sendo exportados para o âmbito social das interações intraeclesiásticas.
A pluralização do fenômeno religioso, uma consequência do processo da secularização, também contribuiu para o inflacionamento da crise de legitimidade da autoridade religiosa. Considerando que por trás desta crise de natureza política da autoridade traditivo-religiosa existe uma pergunta com intenção de desconstruir a plausibilidade da autoridade dos dogmas cristãos, a consequência desta crise acabou afetando a dimensão subjetiva da psicologia humana no contexto da sociedade moderna. A relativização da verdade teológica, na era da ciência moderna, descapitalizou a submissão cognitiva irrestrita mesmo das pessoas que transitam no reino da religião que se insere no contexto da modernidade, produzindo a atitude irreverente destas frente a quaisquer representantes oficiais da religião que fala em nome da fé.
Quando se pergunta sobre a crise de legitimidade autoridade pastoral no mundo contemporâneo, deve-se ter em mente o contexto histórico-cultural em que esta se encontra envolta. No caso dos pastores evangélicos brasileiros, há ainda outros agravantes.
O mau uso do princípio hermenêutico do “livre exame” acabou fomentando a construção de um “ethos” pastoral em que se prescinde da necessidade de uma boa formação cognitivo-moral por parte dos pastores, como se quisesse comunicar com isso que o compromisso da fé com a verdade e a justiça não é uma “conditio sine qua non” para o legítimo exercício da atividade poimênica.
Como na modernidade “radical” se percebe o desenvolvimento do fenômeno sociocultural da destradicionalização (que se traduz em perda de plausibilidade da tradição em sentido amplo), a autoridade religiosa como um todo, e a pastoral em específico, também sofre o efeito colateral deste fenômeno macrocultural no Ocidente.

O caráter pragmático que parece ter incorporado a espiritualidade evangélica brasileira acaba sugerindo uma forma de reflexividade presente em seu arcabouço moral. Os riscos presentes na sociedade do medo, prenhe de infindáveis ameaças sociais (dentre elas a desempregabilidade estrutural que pode ser desencadeada com a crise do capitalismo global), produzem um senso de vulnerabilidade cada vez maior, mesmo na psicologia das pessoas religiosas.
Neste sentido, o caráter funcional da espiritualidade das religiões de prosperidade acaba acentuando o descompromisso cognitivo com a verdade como forma de ser e pensar o mundo a partir da fé. O senso pragmático que se insinua aí torna o compromisso da fé com a verdade cada vez menos relevante: a verdade de quem é moralmente o pastor; a verdade dos valores que este preserva na forma de viver eticamente seu ministério; a verdade de suas pretensões vocacionais no exercício de sua atividade poimênica. O carisma se torna critério suficiente de legitimação do exercício poimênico que se exerce neste contexto religioso.
A consequência que surge deste cenário desencantador não pode ser outra senão o descrédito endêmico dado ao pastor, seja ele sério e comprometido com valores éticos da fé, seja ele um picareta que se esconde por trás da demagogia de um discurso persuasivo e arrebatador, representando um tipo de espiritualidade funcional no mercado da fé. No escopo desta crise de legitimidade da autoridade pastoral, “o destino de um, infelizmente, acaba sendo compartilhado por todos”. (grifo pertinente)